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	<title>Paulo Argollo</title>
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		<title>Unidos pela fama.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Argollo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Jun 2023 18:52:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
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<p><em>Texto escrito para o site. Junho de 2023.</em></p>



<p>Era uma noite daquelas! Uma festa animadíssima na mansão de ninguém menos que Elizabeth Taylor, em Los Angeles. A festa estava cheia de celebridades, artistas do cinema e da música. Um dos convidados era David Bowie, que saía despreocupado do banheiro limpando o nariz. No mesmo instante, uma certa exaltação se formou entre os convidados. É que John Lennon acabara de chegar, acompanhado de uma turma barulhenta, entre eles o baterista Keith Moon, do The Who. Quando Bowie viu John Lennon passar pela porta da sala, tomou um susto e, num impulso, voltou para o banheiro e trancou a porta. Olhando no espelho, Bowie se lembrou de quando tinha 19 anos de idade e vivia em Londres.  O ano era 1966 e ele, ainda conhecido como David Jones, estava num pub qualquer bebendo num fim de noite, quando começou uma discussão no balcão. Um velho visivelmente bêbado gritava “Vocês não deviam falar assim comigo! Vocês não sabem quem eu sou! Meu filho acabou de ganhar uma medalha da Rainha! Meu filho é a porra de um dos Beatles, seus desgraçados!” Antes de ser enxotado do bar, David teve uma breve conversa com aquele senhor. Fez algumas perguntas pra ter certeza que ele era quem dizia ser. De fato, aquele era Alfred Lennon, pai de John. Enquanto o velho se preparava para ir embora, David disse: “É um prazer conhece-lo, senhor. Eu sonho em um dia poder conhecer pessoalmente seu filho também.” Bêbado e mau humorado, Alfred murmurou enquanto andava porta afora. “Claro. Claro&#8230; quem sabe um dia. Vai sonhando, garoto.”.</p>



<p>De volta a festa, em fevereiro de 1974, Bowie estava no banheiro olhando no espelho com suas memórias e seu amor pelos Beatles rodopiando em sua cabeça. “Eu vou conhecer John Lennon.” Disse Bowie olhando para si mesmo no espelho. Rapidamente enfileirou uma quantidade de cocaína na pia, cheirou, respirou fundo, arrumou o cabelo e saiu do banheiro. Logo que saiu do banheiro, a anfitriã e amiga Elizabeth Taylor o pegou pela mão e foi puxando apressada até parar na frente de Lennon. Liz Taylor apresentou os dois. John estava numa boa, foi simpático, mas Bowie estava apavorado. Quase gaguejando, disse algo como “É um prazer conhece-lo sou um grande fã. Tenho todos os discos dos Beatles e de sua carreira solo&#8230; agora com licença, preciso ir a um lugar&#8230;” E saiu. Se ele realmente foi embora da festa ou ficou escondido em algum cômodo da casa, evitando a presença de Lennon, ninguém sabe direito. Mas foi realmente embaraçoso.</p>



<p>Antes de continuar a história, vale a pena contextualizar o que se passava naquela época, o começo do ano de 1974. David Bowie era considerado um dos maiores artista de rock. Dois anos antes, em 1972, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars transformou Bowie num fenômeno mundial. Na sequência, Alladin Sane também foi um sucesso avassalador. Naquele começo de 1974, ele estava finalizando a gravação de Diamond Dogs, outro disco clássico, e tentava se reinventar, tendo, na turnê anterior, já “matado” o personagem Ziggy Stardust, inclusive. Do lado de John Lennon, também era tempo de mudanças e muita loucura. John vivia o que ficou conhecido como Fim de Semana Perdido. Um fim de semana que durou de outubro de 1973 a fevereiro de 1975, em que John ficou separado de Yoko Ono e caiu na esbórnia com uma voracidade ímpar. Ele tinha acabado de se mudar de New York para Los Angeles, onde ia a shows de amigos como Elton John e Eric Clapton e enchia a cara em jantares de gala e bares refinados com Keith Moon e Ringo Starr (que também estava solteiro e morando em LA na época). Tudo era festa!</p>



<p>Em março de 1974 é lançado o disco Diamond Dogs, que se torna sucesso imediato, puxado pelo hit Rebel Rebel. Mal Diamond Dogs foi lançado, Bowie já estava trabalhando na pré produção de seu próximo disco. Na onda de querer se reinventar, acabou convocando o produtor Tony Visconti, que tinha uma cabeça arejada e era ligado aos novos sons da música black e disco. Juntou-se ao time o excelente guitarrista Carlos Alomar, que seria parceiro de Bowie por década depois. Quando estava idealizando o disco que viria a ser Young Americans, Bowie teve a ideia de fazer uma versão de Across the Universe para incluir no repertório do disco, uma composição de Lennon, gravada no disco Leit It Be. Além de ser uma excelente música, Bowie viu a oportunidade de voltar a falar com Lennon, e tirar a má impressão que ficou na festa da Liz Taylor. Dessa vez foi Tony Visconti, que já conhecia John Lennon, quem intermediou o encontro. Bowie disse que queria pedir a autorização de John Lennon pessoalmente, para gravar Across the Universe, e pediu para Tony marcar o encontro.  John foi até a suíte do hotel onde Bowie estava hospedado, em junho de 1974. Lá chegando, John foi recebido com animação, mas Bowie estava visivelmente nervoso e ficou sentado num canto rabiscando qualquer coisa num bloco de papel, enquanto John e Tony jogavam conversa fora. Depois de mais de uma hora, John se senta ao lado de Bowie, pede uma folha de papel e um lápis e faz um desenho, uma caricatura de Bowie. Bowie responde fazendo uma caricatura de Lennon&#8230; os dois riem, o gelo é quebrado e eles desatam a conversar. E falam por horas.</p>



<p> Depois desse encontro, Bowie e Lennon passam a se falar com frequência. Cria-se uma amizade. Em janeiro de 1975 as gravações de Young Americans estavam avançadas. Para gravar Across the Universe, Bowie convidou John Lennon para fazer uma participação.  John topou e foi até o estúdio, onde gravou guitarra para a música. Depois da gravação, os dois ficaram no estúdio batendo papo. A conversa girou em torno de como os dois lidavam com a fama, enfatizando seu lado mais amargo e incômodo. Já que estavam num estúdio, depois de muito conversar, resolveram fazer um som, só pra relaxar. Carlos Alomar, que estava ali junto o tempo todo, participou da jam session. E foi Alomar que criou de improviso um riff de guitarra que passou a ser desenvolvido. Ali mesmo, Lennon e Bowie escreveram a letra e criaram a estrutura da música Fame, que acabaria incluída no disco.</p>



<p>Young Americans foi lançado em março 1975 com grande sucesso. A amizade de Bowie e Lennon foi se estreitando cada vez mais, ao ponto até de John dar uns toques a Bowie que ele poderia estar sendo passado pra trás pelo seu empresário da época. De fato, descobriu-se mais tade que Tony Defries, empresário de Bowie, ganhava umas comissões por fora e tirava uma graninha aqui e ali, sem repassar nada para o artista. Bowie, tendo sido aconselhado por Lennon, demitiu Defries em dezembro de 1975. Outro momento curioso envolvendo a dupla aconteceu em 1977. Naquele ano, Bowie vivia grudado a Iggy Pop. Os dois fizeram uma temporada de shows no Japão e estavam voltando para Berlim, onde moravam na época. O voo entre Tokyo e Berlim em que eles estavam fez uma escala em Hong Kong, No aeroporto da cidade chinesa, Bowie foi informado que John estava na cidade, também numa escala. John embarcaria justamente para Tokyo naquela noite, para se encontrar com Yoko Ono. Sabendo disso, alguns telefonemas foram feitos e Bowie não seguiu viagem, para poder se encontrar com John. Iggy Pop seguiu sozinho para Berlim naquela tarde. Nessa mesma John e Bowie se encontram e saem para fazer uma caminhada pelas ruas de Hong Kong. Durante o passeio, um jovem chinês, de no máximo 15 anos, parou os dois e disse para John: “Com licença. O senhor não é o John Lennon, dos Beatles?” John, espirituoso, responde: “Não. Mas bem que eu gostaria ter o dinheiro dele.” Bowie caiu na gargalhada e amou a resposta! Tanto que passou a usá-la com frequência, quando era abordado com a mesma pergunta. Alguns meses depois disso, Bowie estava em New York, andando pelo Soho, quando alguém atrás dele diz: “Ei, você não é o David Bowie?” Bowie sorri e, sem sequer olhar para trás, responde: “Não. Mas bem que eu gostaria de ter o dinheiro dele.” A mesma pessoa o segura pelo braço e diz: “Seu bastardo mentiroso! Você queria era ter o meu dinheiro!” Era John Lennon, e os dois se abraçam.</p>



<p>A amizade entre Bowie e Lennon foi relativamente curta, mas intensa. Durou apenas 6 anos. Sabendo da importância que John tinha na vida de David Bowie, May Pang, secretária pessoal de Yoko Ono, amante de Lennon durante o Fim de Semana Perdido e, por consequência, também amiga de Bowie, fez questão de ir pessoalmente ao apartamento dele naquela noite trágica e fria de 8 de dezembro de 1980. Ao receber a notícia a morte de John Lennon, Bowie ficou inconsolável.  Chorava e gritava de dor. Meses depois, numa entrevista, Bowie disse sobre a morte de John Lennon: “Um pedaço inteiro da minha vida parecia ter sido tirado, toda a razão de ser cantor e compositor parecia ter sido removida de mim.” A explicação para tamanho sentimento de Bowie por Lennon vai muito além do sonho de guri, de conhecer seu ídolo, como ele próprio disse ao pai de Lennon no passado. John Lennon era um confidente e conselheiro de Bowie.</p>



<p>Desde que conseguiu fama mundial por conta do disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars, Bowie, inglês tal qual os Beatles, era obcecado por ser reconhecido nos Estados Unidos. A cada single, a cada disco lançado, mesmo que o disco vendesse milhares de cópias, seus shows estivessem sempre lotados e a as pessoas o adorassem a ponto agarrá-lo e rasgar sua roupa, Bowie achava que não conseguia conquistar de verdade o púbico americano por nunca ter tido um single sequer no topo da parada da Billboard. E ele conversava sobre isso com John, que sempre dizia que aquilo era besteira, que todo mundo amava ele nos Estados Unidos. Algumas semanas depois que Young Americans foi lançado, em 1975, John e Bowie foram ao Madison Square Garden, em New York, para assistir a um show do Elton John. Em certo ponto do show, o pianista anuncia que estava ali no backstage curtindo o show, ninguém menos que David Bowie. A plateia foi a loucura gritando “BOWIE! BOWIE! BOWIE!” Ouvindo aquilo, John Lennon deu um abraço no amigo e disse “Eu não te falo sempre, David? Olha só. A América te ama, cara!” Efetivamente, podemos dizer que John Lennon foi responsável direto pelo fim dessa neura de Bowie com o público dos Estados Unidos. E não só por conta dos conselhos. No dia 20 de setembro de 1975, a música Fame, composta por David Bowie e John Lennon chegou ao primeiro lugar da Billboard. Pela primeira vez Bowie chegava ao topo das paradas os Estados Unidos. Desde então, ele conseguiu alcançar várias outras vezes o número um da Billboard, com uma carreira longeva e genial. No final de 2013 David Bowie foi diagnosticado com um câncer no fígado. Lutou por dois anos bravamente contra a doença e acabou morrendo no dia 10 de janeiro de 2016, aos 69 anos de idade. Mas através da música, ficou imortalizada uma das mais lendárias histórias de amizade do rock n’ roll.</p>
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		<title>Raízes Podres</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Argollo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Jun 2023 20:41:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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					<description><![CDATA[Texto escrito para o site. Junho de 2023 A humanidade está sempre em busca de suas origens. Tudo bem, talvez nem todo mundo tenha esse ímpeto, de querer saber de onde veio, quem eram seus ancestrais e até mesmo porque determinadas costumes e princípios lhe são caros e outros são desprezados. Mas em muita gente [&#8230;]]]></description>
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<p><em>Texto escrito para o site. Junho de 2023</em></p>



<p>A humanidade está sempre em busca de suas origens. Tudo bem, talvez nem todo mundo tenha esse ímpeto, de querer saber de onde veio, quem eram seus ancestrais e até mesmo porque determinadas costumes e princípios lhe são caros e outros são desprezados. Mas em muita gente que tem isso sim. Para nós, brasileiros, isso acaba sendo até um pouco mais fácil, pelo Brasil ser um país cuja civilização é jovem, tendo apenas um pouco mais de 500 anos. Ou seja, uma boa parte dos brasileiros tem sua origem na miscigenação de indígenas e africanos escravizados com brancos europeus. Outra parte dos brasileiros não tem tanto essa miscigenação, porque são de famílias europeias, que migraram para o Brasil depois do século XIX. O que eu me pergunto é: o que as pessoas fazem com essas informações.</p>



<p>Mais importante do que conhecer suas origens, é entender o que elas representam e como elas refletem na sua própria existência. Estamos presenciando, de uns anos pra cá, uma avalanche de acontecimentos que não podem ser ignorados. Muito pelo contrário, devem ser vistos, analisados, discutidos, pessoas devem ser responsabilizadas e precisamos entender porque essas coisas estão acontecendo, para que a gente possa fazer alguma coisa para evitar que se repitam de novo, e de novo, e de novo, e de novo&#8230; Eu estou falando de um homem que ocupando um cargo de ministro, fez um pronunciamento emulando Goebbels e a retórica nazista, um ex-presidente da república que repudia os povos indígenas, aplaude ditadores responsáveis por mortes e torturas, células de grupos neonazistas organizadas e ativas, influenciadores digitais que acreditam que racismo é uma questão de opinião e que um partido nazista não deveria ser proibido de se articular no Brasil e um número assustador de pessoas que acreditam que ser racista, divulgar notícias falsas e defender o nazismo são atos validados pela liberdade de expressão.</p>



<p>É muito comum a gente ouvir algumas pessoas dizendo que o Brasil é o que é por culpa dos portugueses, afinal de se tivéssemos sido colonizados pelos ingleses, holandeses ou franceses, seríamos um país muito melhor. Será? Jamaicanos, haitianos, argelinos, indianos e muitos outros povos provavelmente vão discordar. O fato é que fomos sim colonizados por portugueses. Isso já diz muito sobre o Brasil atual. Portugal, mesmo quando esteve na dianteira do mundo, conquistando terras por toda parte, sempre foi um país culturalmente atrasado. Atrelado à religião, sempre foi retrógrado, conservador e inculto. Isso desde a época do descobrimento até o período imperial, com Dom Pedro I. Além disso, por conta das grandes dimensões do país, o Brasil recebeu o maior número de negros escravizados do mundo. E o modo como a sociedade sempre lidou com essa questão também é muito reveladora. O negro acabou sendo desprezado, sem ser considerado uma pessoa, mas sim um bicho, uma coisa incômoda que habita à margem. Os governos, apoiados pela minoritária população rica, criaram muitas leis para combater o tráfico e a escravidão, para em seguida fechar os olhos e descumpri as mesmas. Quando a escravidão foi tardiamente abolida, ao invés de se criar políticas para integrar os negros libertos à sociedade, eles foram varridos para os morros e criaram-se sim políticas para indenizar os fazendeiros que perderam sua mão de obra. Ou seja, o Brasil sempre foi elitista, segregador e sempre colocou seus interesses (geralmente escusos) acima do cumprimento das leis.</p>



<p>Um ano depois da Lei Áurea ser assinada, vem o golpe militar que derrubou Dom Pedro II e acabou por instaurar a república no Brasil. Durante toda a República Velha, quem realmente mandava no Brasil era a aristocracia, uma verdadeira bancada ruralista. A mesma classe rica e minoritária que se coloca acima das leis e das pessoas, desde os senhores de engenho das primeiras capitanias hereditárias até os barões do café da República do Café com Leite. Uma aristocracia capaz de manipular governantes através do dinheiro. No início do século XX o Brasil começa a prosperar e se desenvolver. Cada vez mais, jovens filhos de famílias ricas vão estuar na Europa e voltam trazendo novas ideias, hábitos e produtos. Da mesma forma, a imigração de estrangeiros em busca de novas oportunidades também ajuda a desenvolver novos centros urbanos em especial no sul e sudeste do Brasil. E quanto mais esses centros urbanos se desenvolvem, mais arrastam para os arrabaldes e periferias os negros, abandonados à própria sorte, sem oportunidade de estudo ou trabalho digno. 40 anos depois, um novo golpe militar muda o cenário político do Brasil. A chamada Revolução de 1930 nada mais foi do que um golpe de estado que alçou Getúlio Vargas ao poder, quebrando o protagonismo de paulistas e mineiros. A era Vargas chegava para acrescentar um novo ingrediente perigosíssimo a essa elite brasileira conservadora: o fascismo.</p>



<p>O início da década de 1930 foi um dos períodos mais emblemáticos da história. O fim da Primeira Guerra Mundial deixou a Europa devastada, e alguns países seriamente prejudicados. Enquanto isso, a Rússia crescia exponencialmente e espalhava ideias comunistas, depois de ter passado pela grande revolução de 1917. Países devastados pela guerra eram solo fértil para plantar o comunismo, mas também para fazer florescer um ódio cego contra qualquer um, afinal, alguém tinha que ser culpado por tanta desgraça. Foi nesse cenário que Mussolini ascendeu na Itália e Hitler na Alemanha. Hitler e Mussolini eram objetos de admiração de Getúlio Vargas, que passou a ter como um de seus principais objetivos caçar e aniquilar comunistas. Isso tomou proporções diabólicas após a instauração do Estado Novo, em 1937. A mais sanguinária e vil ditadura que o Brasil presenciou. Nessa época o abismo entre classes sociais seguia inabalável. Dado todo o histórico social do Brasil até aqui, conservador, retrógrado e elitista, não é surpresa para ninguém que o partido nazista tivesse uma célula forte por aqui. Mais que uma célula forte, o partido nazista no Brasil era o maior do mundo em número de associados, perdendo apenas para a sede do partido, na Alemanha. O partido tinha células em vários países do mundo, desde os Estados Unidos até o leste europeu e na Argentina. Mas nenhum tinha tantos filiados quanto o Brasil.</p>



<p>O partido nazista foi fundado no Brasil em 1928, na cidade de Timbó, próxima a Blumenau, no estado de Santa Catarina. A imigração de alemães foi muito importante para o sul do Brasil, principalmente no século XIX. Os primeiros alemães chegaram no Rio Grande do Sul e Santa Catarina por volta de 1824. Mas foi no segundo ciclo migratório, logo após o fim da Primeira Guerra Mundial, que alemães vieram para o Brasil, fugindo da crise durante a República de Weimar, e se estabeleceram em São Paulo e Santa Catarina, trazendo na bagagem os ideais nazistas. O partido foi fundado no Brasil em 1928, mas se consolidou mesmo após a chegada de Vargas no poder. O partido nazista apoiou o ataque a São Paulo em 1932 e teve acesso aos primeiros escalões do governo de 1933 em diante, quando Hitler se tornou chanceler da Alemanha. Em 1934 o partido nazista no Brasil tinha quase 3 mil filiados e tinha se espalhado por 76 cidades do Brasil, em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco, Pará e Paraná. Fora da Alemanha era a maior célula nazista do mundo, na frente até mesmo da Áustria, terra natal de Hitler. Por aqui, os nazistas, naturalmente antissemitas, não tinham tantos judeus para rivalizar, então voltaram seu ódio aos negros, indígenas e miscigenados. O partido não aceitava membros que não fossem comprovadamente alemães natos ou descendentes diretos de alemães. Afinal, a eugenia sempre foi um pilar do nazismo. O partido nazista acabou extinto no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, quando Vargas foi convencido, contra sua vontade e contra a vontade de generais como Dutra e Góis Monteiro, a se aliar aos Aliados. É sempre bom salientar. Getúlio Vargas simpatizava com Mussolini e Hitler e queria se aliar ao Eixo, já que era ele próprio um ditador fascista no Brasil naquela época. Além disso, o Brasil contava naquela época com o Partido Integralista, os famosos galinhas verdes. Os integralistas eram nacionalistas de extrema direita (a.k.a. fascistas), e o partido nazista, muito excludente e rigoroso, não permitia que qualquer cidadão brasileiro, mesmo tendo ascendência germânica, se juntasse a ele. Assim, muitos descendentes de alemães começaram a migrar para o partido integralista. Partido este que foi mais uma das muitas faces dessa direita torpe e conservadora brasileira.</p>



<p>Apesar de todo o autoritarismo e truculência, a Era Vargas trouxe algum progresso à sociedade brasileira, democratizando um pouco o acesso ás urnas e estabelecendo uma legislação trabalhista, que até então inexistia no país. Nas décadas de 1950 e 1960 o Brasil se desenvolveu bastante, mas ainda muito pouco era feito para diminuir o abismo social e efetivamente integrar a população negra à sociedade. Criou-se assim essa imagem que foi perpetuada ao longo das décadas de negro é pedreiro, porteiro ou bandido. Muita gente diz que o Brasil não é um país racista, justificando que aqui nunca teve nada como o ocorrido nos Estados Unidos, de haver, de fato, uma segregação, banheiro exclusivo para negros, transporte coletivo com assentos marcados e etc&#8230; Essas coisas não aconteceram por aqui porque os negros sequer tinham a oportunidade de frequentar restaurantes ou lanchonetes, já a elite branca brasileira, jamais se sujeitou a andar de ônibus ou de bonde. Portanto, essa segregação sempre rolou no Brasil Os restaurantes e lanchonetes que os negros frequentavam, e boa parte ainda frequenta, são os da periferia, onde uma maioria negra já habita, bem como é uma maioria de negros que se faz valer do transporte público para ir trabalhar e ir de um lugar ao outro de maneira geral. E, se hoje em dia, a maior parte da população das favelas e periferias é formada por pessoas pretas, se a maior parte da população carcerária é formada por pessoas pretas, se  a esmagadora maioria da população universitária do Brasil é formada por pessoas brancas, se a esmagadora maioria das pessoas sente um medo involuntário de ser roubada ao ver uma pessoa preta numa rua vazia, se uma família de pessoas pretas num carro, indo para uma festa, em plena luz do dia, é “confundida”, e “confundida” entre muitas aspas, por bandidos e tem seu carro alvejado de balas por militares. Olha, se tudo isso acontece, e você sabe que acontece, o Brasil é sim racista pra caralho!</p>



<p>Voltamos ao início do texto. Ministro emulando Goebbels, youtuber falando que racismo é liberdade de expressão, células neonazistas em atividade no sul do Brasil. E isso continua. Mês passado, em maio de 2023, um deputado do Mato Grosso do Sul discursou citando, e exibindo em suas mãos um exemplar, o livro Mein Kampf, de Adolf Hitler. Por mais que negros, bem como homossexuais, mulheres, indígenas e etc, tenham mais voz hoje em dia, que existam políticas de cotas para negros em empregos públicos e universidades, ainda há muito o que evoluir. E não vai ser ignorando o racismo e manifestações neonazistas e neofascistas que vamos mudar alguma coisa. Eu sei que muitas vezes nos sentimos impotentes frente a essas questões. Até nos indignamos quando vemos as notícias e tal. Mas, o que mais podemos fazer? No mínimo, podemos falar a respeito. A minha maneira é escrevendo este texto, buscando as origens de um comportamento profunda e dolorosamente enraizado na nossa sociedade. Levantando a reflexão de que em pleno 2023 não cabem mais determinadas piadas, por mais que se considerem “ingênuas” ou “só uma piadinha, é humor e não racismo”. Não dá mais. Assim como não dá pra aceitar um deputado empunhando o Mein Kampf no púlpito, assim como não dá pra aceitar que um pastor evangélico diga que homossexuais merecem sofrer e ainda ser aplaudido por toda uma congregação, assim como não dá pra aceitar que um homem negro seja morto por policiais numa câmara de gás improvisada, assim como não dá pra aceitar pessoas defendendo golpe militar. Não dá pra aceitar. Mas é necessário falar sobre tudo isso de maneira crítica e racional, para que a gente consiga, pelo menos, começar a identificar e eliminar cada uma dessas nossas raízes podres.</p>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Argollo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Apr 2023 14:51:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Kurt Cobain]]></category>
		<category><![CDATA[Nirvana]]></category>
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					<description><![CDATA[Texto escrito para o site. Abril de 2023. No final de agosto de 1991, Stephen Shein, dono de um bar em Dallas, soube que uma banda do noroeste do país estava em turnê pela região. Muita gente falando bem da banda, um show muito bom&#8230; Ele nunca tinha ouvido falar dos caras, mas muita gente [&#8230;]]]></description>
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<p><em>Texto escrito para o site. Abril de 2023.</em></p>



<p>No final de agosto de 1991, Stephen Shein, dono de um bar em Dallas, soube que uma banda do noroeste do país estava em turnê pela região. Muita gente falando bem da banda, um show muito bom&#8230; Ele nunca tinha ouvido falar dos caras, mas muita gente já comentava sobre eles. Vinda de Seattle, a banda Nirvana tinha uma base de fãs crescente, tinha um disco independente lançado e acabara de gravar um segundo disco por uma grande gravadora, que estava prestes a ser lançado. Shein não pensou muito e contratou a banda para tocar em seu bar, um lugar chamado &nbsp;Trees in Deep Ellum, que tinha por lotação máxima mil pessoas. Nada mau.</p>



<p>Acontece que no dia 24 de setembro, é lançado o disco Nevermind. Simplesmente o disco que mudou a música pop. Empurrado pelo clipe de Smells Like Teen Spirit na MTV, Nevermind vendeu mais de 50 mil cópias em duas semanas. Um número impensável para uma banda de rock alternativo. Para quem nunca tinha ouvido falar do Nirvana dias antes do lançamento de Nevermind, agora ouvia o nome da banda em toda parte. Shein havia contratado o Nirvana para tocar em seu bar no dia 17 de outubro de 1991. Duas semanas antes do show, com Nevermind já no topo das paradas, o show da banda no Trees in Deep Ellum já estava com os ingressos esgotados. Ia ser lotação máxima.</p>



<p>Na noite do show, uma multidão apareceu na frente do bar. Mais de cinco mil pessoas, segundo a polícia, que teve que aparecer para dispersar o pessoal que tentava entrar no show. Dentro do bar, mal dava pra se mexer, de tanta gente. Na frente do palco, apenas um homem fazia a segurança do lugar. Um grandalhão chamado Turner Van Blarcum, que sempre fazia uns freelas por lá. Sua função era simplesmente controlar a garotada que gostava de subir no palco pra fazer stage dive. Por volta de dez da noite começa o show. A banda estava afiadíssima, empolgante, barulhenta. Havia uma energia forte no lugar.</p>



<p>Passam aproximadamente 40 minutos e Novoselic ataca no baixo o riff da introdução de Love Buzz. Era uma das músicas que Kurt Cobain mais gostava de tocar nos shows, ele realmente se divertia. Naquela noite, a empolgação da música, durante o solo de guitarra, fez com que ele repetisse o que fazia com frequência. Pulou em cima do público, e ali ficou, deitado curtindo o crowd surfing. Van Blarcum, o segurança com nome de general nazista, ao perceber que Cobain era carregado cada vez para mais longe do palco, não pensou duas vezes. O segurou pela perna e o puxou de volta para o palco. Talvez por reflexo, talvez por querer continuar ali, nas mãos do povo, Kurt sapecou sua Fender Jazzmaster na testa do segurança. Falando assim, parece que a coisa durou um tempão, mas foi questão de segundos. E o caos se instaurou.</p>



<p>Aí sim Van Blarcum puxou Kurt de volta, puto da vida e com a testa sangrando. Assim que aterrissou no palco, o segurança deu um soco que derrubou o franzino Kurt Cobain no ato. No chão, Kurt ainda levou um chute do segurança, até que Dave Grohl, como um gato, pulou sobre o kit da bateria para apartar a briga, pois Novoselic já partia pra cima do segurança. A plateia estava enfurecida e vaiava enquanto a banda saía do palco. Temendo que seu bar fosse destruído, Shein prometeu que a banda voltaria para finalizar o show. Para acalmar os ânimos, fez o que julgou ser o mais apropriado. Colocou Nevermind para tocar e entreter o público. Alguém da equipe da banda foi esperto o suficiente para tirar o disco antes que o refrão de Smells Like Teen Spirit inspirasse uma rebelião.</p>



<p>No backstage as coisas se acalmaram. Van Blarcum foi cuidar do corte na sua testa e a banda voltou ao palco para finalizar o show. Foi mais meia hora de som. A banda voltou sem perder a energia e entregou um ótimo show ao público texano. Aparentemente, tudo acabara bem. Porém, nos fundos do bar, quando a banda entrava num taxi para ir embora, Van Blarcum, ainda irritadíssimo, sai das sombras da rua vazia e parte pra cima de Kurt Cobain mais uma vez. O trio já estava no carro, Kurt na janela. O segurança deu um soco e quebrou o vidro e tentou agarrar Cobain e tira-lo de dentro do taxi. Por sorte, o motorista foi mais rápido e acelerou, deixando Van Blarcum frustrado e nervoso no meio da rua.</p>



<p>Mais ou menos um ano depois, o pessoal do Nirvana soube que aquele show de Dallas, em que Kurt apanhou do segurança, foi filmado, incluindo a cena da pancadaria. A banda achou graça e chegou a contratar alguém em Dallas para procurar o dono da fita e conseguir uma cópia. Assim chegaram até Brad Featherstone, um músico amador de Dallas, que frequentava o Trees in Deep Ellum, por vezes para tocar, outras vezes só pra curtir o rolê. E naquela noite, ele levou sua câmera e filmou praticamente todo o show, posicionado ao lado do palco. A cena durante Love Buzz acabou se tornando famosíssima. A própria banda usou o vídeo em alguns momentos, incluindo o home vídeo Live! Tonight! Sold Out! lançado logo após a morte de Kurt Cobain em 1994. Mais de uma década depois, esse trecho do show, filmado por Featherstone, foi postado no Youtube e vem sendo assistido por milhares de pessoas desde então.</p>



<p>Esse show, no Trees in Deep Ellum, foi um dos últimos shows em lugares pequenos que o Nirvana fez. A escalada de vendas avassaladora de Nevermind rumo ao topo, levou a banda a se apresentar em arenas e grandes festivais. Mas foi tudo realmente uma revolução involuntária. Quando a banda assinou com a Geffen, apadrinhados pelos nova iorquinos Sonic Youth, os diretores da gravadora não deram muita atenção ao Nirvana. Não houve interferência durante as gravações do disco e pouco investimento foi aplicado na divulgação. O Sonic Youth havia lançado Goo fazia pouco tempo, e vendera 50 mil cópias. Um número animador para uma banda alternativa. Esperavam que o Nirvana, se muito, fizesse o mesmo número de vendas.</p>



<p>Acontece que em dezembro de 1991, dois meses depois do lançamento do disco, Nevermind vendia 300 mil cópias por semana. Smells Like Teen Spirit tirou Michael Jackson do topo da Billboard e o Nirvana abria caminho para uma horda de músicos maltrapilhos, de cabelo ensebado, camisa de flanela xadrez e jeans rasgados, que tomariam as capas das principais revistas mundo afora. Bandas que, em outra circunstância, ninguém ouviria falar, como Melvins, Pixies, Vaselines, Flipper, Meat Puppets e tantas outras ganharam notoriedade. Bandas de Seattle contemporâneas ao Nirvana e até mesmo mais antigas, se tornaram ícones, como Mudhoney, Soundgarden, Alice in Chains, Screaming Trees e Pearl Jam. Bandas de fora de Seattle, que convergiam em estilo, atitude e sonoridade passaram a ser rotuladas como grunge, como Smashing Pumpkins, L7, Stone Temple Pilots, Silverchair e tantas outras.</p>



<p>Dá pra dizer sem medo de errar que o Nirvana salvou o rock, que estava fadado a mediocridade. Além de seus próprios discos serem brilhantes, Nirvana fez com que centenas de bandas tivessem voz, rejuvenescendo o cenário pop. Kurt Cobain, mesmo negando a desconfortável posição de voz de uma geração, falava abertamente em entrevistas sobre igualdade, racismo, homofobia, misoginia, despertando debates que a maioria dos ídolos pop evitavam, e ainda evitam hoje em dia.</p>



<p>Entre o final de 1991 até o início de 1994, o Nirvana seguiu fazendo shows inesquecíveis e imprevisíveis. Não mais em lugares pequenos, mas sim tocando para multidões. Mas nunca faziam um show regular ou protocolar. Sempre era exagerado para o bem e para o mal, e cheio de surpresas. Fosse Kurt entrando no palco empurrado numa cadeira de rodas, ou usando um vestido de mulher, a banda tocando covers bizarros, se negando a tocar hits (em especial Teen Spirit), às vezes tocando muito bem, às vezes fazendo shows sofríveis, mas sempre fazendo uma bela destruição de equipamento no palco, envolta em microfonia. O show de Dallas marcou a virada do Nirvana, de uma banda underground para o topo da música pop. Pode-se dizer que foi o começo do fim. Mas eu prefiro dizer que foi só o começo. Ponto final.</p>
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		<title>Você vai continuar fazendo música?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Argollo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Mar 2023 14:35:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
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					<description><![CDATA[Texto escrito para o site. Março de 2023. Era o primeiro show realmente grande que eu presenciava. E não era qualquer show gringo em estádio de futebol. Era o primeiro show da banda no Brasil, aquela banda do meu coração. Portanto, tudo era muito emocionante para mim. Eu estava eufórico. Mas tudo mudou quando o [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Texto escrito para o site. Março de 2023.</em></p>



<p>Era o primeiro show realmente grande que eu presenciava. E não era qualquer show gringo em estádio de futebol. Era o primeiro show da banda no Brasil, aquela banda do meu coração. Portanto, tudo era muito emocionante para mim. Eu estava eufórico. Mas tudo mudou quando o vocalista disse a frase “We’ll try this one&#8230;”. Aquele primeiro acorde, aquela Telecaster afinada em ré com um timbre maravilhoso, encharcado em reverb e chorus, ressoando&#8230; “Do you see the way that tree bends&#8230;”. Aquilo me atingiu em cheio. Enquanto os fãs reconheciam a música, vibravam e aplaudiam, eu fiquei ali parado sentindo uma coisa muito forte, que eu não consigo descrever. Eu estava rodeado de amigos naquele show, mas naquele momento particular, parecia que eu estava sozinho. Eu e a banda. E foi a primeira vez que eu chorei vendo alguém tocar uma música na minha frente.</p>



<p>O show em questão foi o Pearl Jam em 2005, a primeira vinda da banda ao Brasil. Assisti o segundo dos dois shows no Pacaembu, em São Paulo. A música que tanto me emocionou foi Present Tense, uma música considerada lado B da banda, mas uma das minhas favoritas, talvez a minha favorita entre toda a obra da banda. É realmente uma música emocionante, carregada de sentimento e com uma melodia fantástica. Me lembrei disso agora porque eu ando, nas últimas semanas, muito envolvido com música de maneira geral. Tenho feito apresentações sozinho, só eu e minha guitarra, andei assistindo umas séries interessantes e também escrevi muito sobre música, sobre determinados músicos, pra ser mais exato, por conta de trabalho. E a cada vez que me debruço sobre qualquer uma dessas atividades, me desperta uma curiosidade muito grande, porque eu acabo sendo tomado por um sentimento de pertencimento, de comunhão. E fico embasbacado por perceber como a música é transcendental para algumas pessoas, e para outras não.</p>



<p>Particularmente, o ano de 2023 é muito especial para o mundo da música, pois marca datas redondas muito importantes. Por exemplo, em março, tivemos os 25 anos da morte do Tim Maia e os 50 anos do lançamento do Dark Side of the Moon. Datas a serem lembradas. Aí, fui na Globoplay assistir uma minissérie sobre o Tim Maia, que consiste numa compilação de imagens raras e entrevistas que ele deu, editadas de forma a contar sua trajetória desde a infância até a vida adulta, o sucesso, os abusos e a morte. E as cenas do Tim Maia no palco são inacreditáveis. Melhores ainda são as cenas dele ensaiando com a banda, em vídeos caseiros. Com uma sensibilidade fabulosa, e sempre fazendo tudo aquilo parecer muito simples, mesmo sendo tão exigente. Aliás, ele era tão exigente com seus músicos justamente porque para ele tudo aquilo parecia tão natural, tão simples, que ele percebia facilmente se alguma coisa estava fora do lugar.</p>



<p>Seguindo nessa onda, assisti uma série recente chamada Daisy Jones and The Six. Uma série que conta a história de uma banda fictícia que se torna número 1 nas paradas dos Estados Unidos, na década de 70. Em formato de documentário e flashbacks, somos apresentados à banda The Six, e à cantora e compositora Daisy Jones, e como eles se juntaram e fizeram tanto sucesso. As músicas compostas para a série são de muito bom gosto, e o roteiro é bem legal, equilibrado entre drama e comédia, com muitas referências à música pop dos anos 60 e 70. Enfim, uma delícia de assistir. E para quem tem essa ligação mais forte com a música, quem toca e compõe, tem um sabor especial, porque mostra os artistas escrevendo suas canções, as diferentes linguagens, maneiras de pensar a música, o que se quer dizer, como combinar palavras e acordes. E principalmente entre a dupla de protagonistas, os personagens Billy Dunne e Daisy Jones, rola todo uma entrega visceral, tanto na hora de compor, quanto na hora de interpretar no palco suas canções. E, apesar da série em momento nenhum levantar essa questão, eu fiquei pensando muito nessa diferença que rola entre o que o artista sente tocando em cima de um palco e o que sente cada pessoa que está ali na frente do palco curtindo o show. E fica claro para mim, que não se trata nem um pouco de virtuosismo, do quão bem o música toca seu instrumento, de como o som tem que estar o mais parecido com a gravação do disco&#8230; não é nada disso! É sobre a entrega. Não para o público, mas para si mesmo.</p>



<p>Para completar, assisti, numa tacada só, os 6 episódios da série McCartney 3,2,1. Nela, Macca e o produtor Rick Rubin estão sozinhos num estúdio ouvindo e conversando sobre música. Essencialmente músicas dos Beatles, é claro. E de uma maneira muito franca e despojada, Paul fala sobre como criou determinadas canções, como ele tocava baixo, como os Beatles pensavam arranjos&#8230;. e era tudo do jeito deles, porque eles queriam eles achavam legal. Não tinha essa de a gravadora vai achar que vende mais assim ou assado, ou essa música agrada mais o público. Ao falar de música com tanto amor e simplicidade, sempre deixando claro que até hoje nunca aprendeu a ler uma linha de partitura, mas dedicou sua vida devotadamente à música, Paul McCartney não se coloca acima de ninguém. Pelo contrário, comunga conosco, reles mortais que tocam um instrumento porque é divertido, que compõe uma canção porque sente que aquilo precisa ser feito, e se o resultado final te satisfaz, vai acabar satisfazendo alguém (ou o mundo todo, no caso dele). Mas é um aprendizado e um alívio, como músico que sou, ouvir toda aquela conversa deles e se sentir fazendo parte daquilo.</p>



<p>Mês passado eu fui convidado para tocar numa cervejaria, onde iria rolar um encontro de um clube de motoqueiros. Aceitei o convite, mas confesso que fui meio ressabiado. Sei que esse pessoal de moto clubes é mais ligado ao hard rock e heavy metal&#8230; e eu, no meu formato solo, só voz e guitarra, apresento um repertório bem variado, mas mais voltado para o rock nacional, com umas pitadas de country e blues. Sem falar que eu gosto de tocar algumas músicas que são pouco conhecidas, de umas banda alternativas, independentes e tal. Pensei comigo: “Desagradar os caras eu não vou. Mas também não vão me adorar. E se assim for, está de bom tamanho.”. Toquei meu set, mas não entreguei 100%. Estava cansado, preocupado em agradar, querendo parecer legal para o pessoal da cervejaria, para, quem sabe, me chamarem para tocar lá de novo&#8230; foi uma apresentação mediana, no meu ponto de vista. Mas teve gente que gostou muito.</p>



<p>Um cara veio falar comigo depois que acabei de tocar. Um cara legal, que eu já conhecia de longa data e não via há muito tempo. Ele veio me falar que gostou do som, que a esposa dele também gostou muito e que ele faz uma festa na casa dele uma vez por mês para reunir os amigos dele e sempre convida um músico pra tocar. E ele queria que eu tocasse na casa dele no mês seguinte. Pois bem. Acertamos a data, ele foi muito bacana e me pagou adiantado e tudo o mais. Eu tinha três semanas para me preparar para tocar lá. Nesse meio tempo, comprei um pedal de efeito que eu queria muito usar. Passei dias treinando em casa para usar este pedal em algumas músicas. Apesar de muito treino, quando chegou o dia de tocar na casa do cara, ainda estava meio inseguro de usar o tal pedal. Além disso tinha feito vários arranjos diferentes para algumas músicas, com alternância de efeitos, mudar andamentos, fazer um dedilhado aqui e ali&#8230; Enfim, toquei lá semana passada e foi incrível. Porque quando comecei a tocar as primeiras músicas, sem pensar, eu comecei a tocar sem usar em vários efeitos, passei por cima de alguns dedilhados&#8230; e toquei com energia, curtindo as canções, afinal, são todas músicas que eu adoro. Não usei a porra do pedal novo em nenhum momento, mas acabei tocando bem, eu estava confortável tocando, realmente empolguei as pessoas que estavam lá curtindo e eu me diverti muito.</p>



<p>O mais curioso é que saí de lá com mais uma data agendada para tocar. Desta vez na sede do moto clube dos caras que estavam lá na festa. Realmente, eu acabei empolgando os motoqueiros, sem tocar um ACDC ou um Black Sabbath sequer. É amanhã que vou tocar lá. Hoje cheguei do trabalho e fui dar um trato na minha guitarra, trocar as cordas e tal. E Depois sentei para tocar algumas canções. Quero variar o set que fiz semana passada. Quando eu vi que comecei a pensar muito em como tocar tal música, ou qual efeito usar&#8230; pensei: Não! É só tocar pra valer. Então, ao invés de ficar mexendo em efeitos, foquei no repertório, escolhi algumas músicas que eu realmente gosto e sei tocar, dei uma repassada nelas, só para relembrar os acordes e é isso aí. Tenho certeza que vai ser tão divertido quanto semana passada.</p>



<p>Por fim, resolvi vir aqui e escrever este texto antes de dormir, porque queria expressar como eu ando me sentindo apaixonado pela música de maneira geral. Como é bom se emocionar com tudo isso. Ao ponto de me lembrar daquela noite em São Paulo, quando o Pearl Jam me fez chorar de emoção. E também fazer eu me sentir conectado ao Tim Maia por me divertir tanto tocando. Fazer com que eu me identifique de tantas maneiras como os personagens de uma série de TV por querer entregar no palco a mesma energia que eu sinto no meu quarto, fazendo música sozinho. Compreender cada vez mais que a simplicidade, a vontade de fazer música, essa ligação tão forte com ela, faz com que eu me sinta cúmplice do Paul McCartney! Olha que loucura! E, acima de tudo, faz com que eu carregue amplificadores pra cima e pra baixo, ganhe quase nenhum dinheiro, fique exausto&#8230; mas quando eu acabo de tocar a última música, eu finalmente paro de olhar para mim mesmo e olho para as pessoas, que honestamente interagiram e curtiram o que estava fazendo. E, por alguns poucos segundos, enquanto o último acorde ainda está soando e as pessoas estão aplaudindo, eu me sinto completo e verdadeiramente realizado.</p>
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		<title>A heroína de dois mundo.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Argollo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Mar 2023 20:39:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[História]]></category>
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					<description><![CDATA[Texto escrito para o site. Março de 2023. Foi um barulho qualquer que a despertou do sono. O sono inconfundivelmente leve que toda mãe tem, sempre atenta a qualquer possível ameaça contra seu bebê. Para ela aquele sono ainda era uma novidade. Havia dado à luz seu primeiro filho apenas doze dias atrás. Levantou da [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Texto escrito para o site. Março de 2023.</em></p>



<p>Foi um barulho qualquer que a despertou do sono. O sono inconfundivelmente leve que toda mãe tem, sempre atenta a qualquer possível ameaça contra seu bebê. Para ela aquele sono ainda era uma novidade. Havia dado à luz seu primeiro filho apenas doze dias atrás. Levantou da cama num sobressalto e olhou para o seu filho, que dormia tranquilo. Mais uma vez um barulho, e um relincho de cavalo, vindos de fora da casa. Ela olha pela janela e vê cinco homens se aproximando sorrateiramente. A casa é pequena. Ela olha por outras janelas, com cuidado para não ser vista. A pequena casa está parcialmente cercada de soldados imperiais. Justamente o fundo da casa, onde seu cavalo está amarrado, não está sob os olhos de nenhum soldado, que se concentram em meio círculo avançando pela frente. Habilmente ela pega a criança, embala junto a si num pedaço de tecido, mantendo-a segura em seu braço esquerdo. Não mão direita uma espingarda engatilhada, pronta para atirar. Com rapidez impressionante, ela sai pela porta dos fundos, monta em seu cavalo e foge a galope mata adentro. Quando os soldados imperiais se dão conta da fuga, iniciam a perseguição. Por algumas horas, ela cavalga em alta velocidade, atirando em quem quer que ouse se aproximar dela, sempre segurando seu filho junto ao corpo. Finalmente ela consegue despistar os soldados. E permanece por 4 dias na mata, escondida, até conseguir se juntar a seus aliados e reencontrar o seu grande amor.</p>



<p>Por incrível que pareça, o relato acima, mesmo sendo de uma coragem e bravura impressionantes, não foi o ato mais heroico de Anita Garibaldi. Ao longo de sua vida de batalhas, ela mostrou-se uma verdadeira heroína, uma mulher destemida, quase invencível. Quase não. Ela foi invencível sim! Porque homem nenhum conseguiu derrotá-la, ou mantê-la prisioneira por muito tempo.</p>



<p>Ela nasceu Ana Maria de Jesus Ribeiro, no dia 30 de agosto de 1821. Seus pais eram portugueses da região dos Açores. A primeira metade do século XIX foi particularmente dura para os portugueses, que viviam uma crise econômica grave, enquanto a política vivia uma fase conturbada. Os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina receberam muitos portugueses que imigraram para o novo mundo em busca de uma vida melhor. Anita foi a terceira de 10 filhos do casal Bento Ribeiro da Silva e Maria Antonia de Jesus Antunes, todos nascidos em Laguna, Santa Catarina. A pequena Anita era muito ligada ao pai, mesmo ele não parando muito em casa, já que era tropeiro e vivia de conduzir gado do Rio Grande do Sul ao Paraná. Quando tinha 12 para 13 anos de idade, ela ficou órfã de pai, cuja morte não se tem registro exato. A partir de então, a condição financeira da família caiu muito. A mãe de Anita mudou-se com os 10 filhos para o centro de Laguna em busca de trabalho. Lá recebiam frequentemente a visita de Antonio da Silva Ribeiro, irmão de Bento. Anita passou a admirar seu tio Antonio, sempre bem apessoado e se dizendo republicano, a favor da liberdade.</p>



<p>Mas foi justamente o tio Antonio que sugeriu que Anita, aos 14 anos de idade, se casasse com Manuel Duarte de Aguiar, um jovem sapateiro. O casamento foi arranjado para aliviar o custo de vida de dona Maria Antonia, que não dava conta de dar de comer a tantos filhos. Há registros de cartas de Anita a seu tio dizendo que seu casamento era uma farsa, não havia qualquer empatia entre o casal, tanto que nunca tiveram filhos. Pra piorar, seu marido era afeito a tomar uns tragos e se declarava monarquista. Anita se casou em agosto de 1835. Um mês depois de seu casamento, a Revolução Farroupilha foi deflagrada. Dois anos depois, em 1838, Manuel Duarte de Aguiar, alistou-se no exército imperial, para lutar contra os farrapos, e abandonou Anita em Laguna. Nessa época, Anita e seu tio Antonio continuavam muito próximos, e agora tinham em comum os ideais republicanos e o apoio à revolução farroupilha.</p>



<p>O italiano Giuseppe Garibaldi era um revolucionário republicano conhecido na Europa, tinha sido condenado à morte em sua terra natal e já tinha percorrido boa parte do mundo, até acabar no Rio Grande do Sul, se apresentando para ser recrutado pelo exército farroupilha. Por seus conhecimentos como navegante, Garibaldi recebeu de Bento Gonçalves uma carta de corso e, em 1839, após sequestrar um navio do império brasileiro, comandou o ataque a Laguna, para que os gaúchos tivessem um bom lugar para estabelecer como porto marítimo. Após a cidade ter sido facilmente tomada, já que a população apoiava os farrapos, da proa do navio Garibaldi observava a cidade com uma luneta. Foi quando viu, por acaso, Anita andando por uma das ruas e ficou encantado. Um dia depois, durante uma reunião dos republicanos em Laguna, Garibaldi finalmente encontra aquela garota que vira através de sua luneta. A reunião aconteceu justamente na casa de Antonio Ribeiro, tio de Anita. Na ocasião, ela tinha 18 anos e Garibaldi 32. Foi uma paixão mútua e imediata.</p>



<p>Com Garibaldi, Anita se juntou de vez ao exército farroupilha. A batalha naval de Laguna, em novembro de 1839, foi onde Anita brilhou como guerreira pela primeira vez. Além de participar de alguns confrontos, sua bravura foi determinante para a sobrevivências das tropas de Garibaldi. Num pequeno barco, Anita ia e voltava da terra firme, buscando armas e munições e levando para os navios dos farrapos. Ela fez tal travessia mais de 20 vezes, em meio ao fogo cruzado. Já em janeiro de 1840, na batalha de Curitibanos (SC), o exército farroupilha se deu mal e teve que recuar. Anita acabou sendo feita prisioneira dos imperiais. Mas não por muito tempo. Em alguns dias, conseguiu convencer o comandante daquela tropa imperial a permitir que ela andasse pelo campo de batalha para procurar o corpo de seu marido, pois corria o boato que Garibaldi tinha morrido em combate. Anita sentia que Garibaldi estava vivo, mas se aproveitou do boato para realizar uma fuga impressionante. Uma vez livre no campo, apanhou um cavalo e disparou rumo ao rio Canoas. Atravessou o rio a nado, um rio de margens largas, cheio de pedras e de correnteza forte, um rio muito perigoso para se nadar. Mas ela conseguiu! Atravessou o rio e chegou ao Rio Grande do Sul, em um dos acampamentos dos farrapos onde, é claro, reencontrou Garibaldi!</p>



<p>Ainda em 1840, no dia 16 de setembro, nasce Menotti Garibaldi, o primeiro filho de Anita e Giuseppe. Doze dias depois, Anita se recuperava do parto num rancho no município de Mostardas (RS), enquanto Garibaldi estava reunido num acampamento perto dali com os líderes republicanos do Rio Grande do Sul. Foi quando aconteceu a incrível fuga a cavalo de Anita com seu bebê recém-nascido. Depois do ataque a Anita e das intermináveis reuniões com os republicanos, que sempre acabavam em discórdia, Garibaldi começava a perceber que a república riograndense não iria muito longe, tantos eram os conflitos internos e as dificuldades de recursos. Pensando no futuro de seu filho e de Anita, ela pede baixa do exército farroupilha. Bento Gonçalves o dispensa demonstrando gratidão, e Garibaldi, Anita e Menotti se mudam para Montevidéu, no Uruguai, em 1841. Lá se casaram oficialmente e tiveram mais 3 filhos. Em 1848 Garibaldi resolve voltar para a Itália.</p>



<p>Até aquela época, a Itália não era um reino unificado. Na verdade, a história política da Itália, tal qual a maioria dos países europeus, é uma baita confusão. Uma terra que já passou pelas mãos de vários reinos e povos, e era dividida em vários pequenos reinados.. Naquela época, pós napoleônica, a Itália vivia sob o trono do Papa Pio IX em Roma, já Piemonte, norte da Itália, era um reino à parte, e a região sul, da Sicília, vivia em eterno conflito. Porém, em toda a parte, crescia no povo italiano um sentimento nacionalista e o desejo por uma unificação, muito dessas ideias tinha inspiração nas novas repúblicas das Américas. É para esse  vespeiro que Garibaldi resolve voltar com a sua família, para ajudar a lutar pela unificação e pela república da Itália. E não é que, com a ajuda de Garibaldi e Anita, em fevereiro de 1849 o papa Pio IX é deposto e é proclamada a República de Roma? Ainda tinha muita luta pela frente, mas aquele foi o pontapé inicial para a unificação da Itália, que aconteceria anos depois. Mas acontece que, enquanto a república era proclamada em Roma, o rei de Piemonte mete os pés pelas mãos e, num péssimo timing, declara guerra ao reino da Áustria. Enquanto os austríacos invadem o norte da Itália, os franceses aproveitam para avançar também e tirar uma casquinha, se dizendo defensores do papa que fora deposto. Por fim, depois de muitas batalhas contra os franceses e austríacos, as tropas comandadas por Garibaldi são expulsas de Roma, a república é desfeita e os italianos republicanos tem que meter sebo nas canelas e fugir.</p>



<p>Claro que Anita esteve o tempo todo batalhando ao lado de Garibaldi. Mesmo grávida. Em julho de 1849, Anita estava grávida de seu quinto filho. Durante a fuga, rumando para San Marino, ela adoeceu. Foi diagnosticada com febre tifoide. No dia 4 de agosto de 1849, Anita Garibaldi, que nunca fora vencida por homem nenhum, sucumbiu à febre e acabou morrendo numa fazendo próxima a cidade de Ravena, nordeste da Itália. Até hoje Anita Garibaldi simboliza a liberdade e a luta por ideais de justiça e igualdade. No centro de Roma, próximo de onde o corpo de Anita está sepultado, se levanta um belo monumento: uma estátua de Anita Garibaldi montada em seu cavalo, bebê numa mão, espingarda na outra, retratando a cena que abriu este texto, e que expressa tão bem sua mais justa alcunha: A Heroína de Dois Mundos.</p>
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		<title>A marcha-ré da História.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Argollo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Mar 2023 21:12:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[História]]></category>
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					<description><![CDATA[Texto publicado em outubro de 2022 em minhas redes sociais. Em junho de 2004 o Papa João Paulo II foi a público pedir perdão à humanidade pelos excessos cometidos pela igreja católica durante o período em que vigorou a infame Santa Inquisição. No caso, este período abrange sete séculos! A Inquisição foi criada pelo Papa [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Texto publicado em outubro de 2022 em minhas redes sociais.</p>



<p>Em junho de 2004 o Papa João Paulo II foi a público pedir perdão à humanidade pelos excessos cometidos pela igreja católica durante o período em que vigorou a infame Santa Inquisição. No caso, este período abrange sete séculos! A Inquisição foi criada pelo Papa Gregório IX em 1233 e durou até meados de1820, principalmente nas cortes da Espanha e Portugal. Por excessos, entenda-se perseguição, tortura, antissemitismo e mortes brutais como enforcamento e ser queimado vivo numa fogueira. Não existe uma estimativa de quanto a Inquisição matou , mas estudos indicam que só a Inquisição Espanhola, notoriamente a mais atuante e cruel, entre 1478 e 1834 matou mais de 300 mil pessoas. Portanto, não é muito provável que o número de vítimas tenha ultrapassado um milhão em toda a Europa e Américas.</p>



<p>Antes da Inquisição, as Cruzadas já promoveram um morticínio enorme. Mas por quê tantas mortes? A resposta mais rápida é que foi tudo em nome de Deus. Mas a gente sabe que não é bem assim. No século V o império romano já dava seus últimos suspiros, deixando um vazio de poder, principalmente em Roma. A igreja católica se aproveitou disso e tomou as rédeas da governança. Enriqueceu rapidamente e passou a ter influência cada vez maior entre os diversos reinos da Europa ocidental. Se distanciando cada vez mais dos verdadeiros propósitos cristãos, a igreja passou a querer ter mais e mais poder. As cruzadas foram uma desculpa da igreja para obter mais territórios e ter maior influência no mundo. Se você quer tentar entender todos os conflitos do oriente médio, as cruzadas e a conquista da Terra Santa (Jerusalém) é um bom ponto de partida. Da mesma maneira, a Inquisição serviu como tropa de choque de retaliação a quem quer que fosse contrário aos ideias da igreja católica.</p>



<p>A Reforma Protestante, encabeçada por Martinho Lutero, foi um baque para o catolicismo, que reagiu com ferocidade. Foi quando a Inquisição intensificou a perseguição aos que eram considerados hereges. Também foi nessa época que foi criada a Companhia de Jesus, pelo bispo Inácio de Loyola. Os membros dessa ordem, os jesuítas, foram os responsáveis por boa parte da cristianização dos povos originários das Américas. Os jesuítas eram a tropa de elite do catolicismo, homens devotos, que não respondiam a nenhum rei ou governador, mas somente ao Papa. Esse movimento da igreja católica ficou conhecido como Contra Reforma, e foi muito responsável pelo atraso sócio cultural tanto das cortes europeias, em especial da península ibérica, como também das colônias no Novo Mundo. Afinal, uma das premissas propostas por Martinho Lutero era que a bíblia sagrada fosse acessível a todos, que todos pudessem lê-la. Para tanto, estimulava a alfabetização dos povos. Já o catolicismo era radicalmente contra isso. Preferia manter o povo analfabeto, como se dissesse “Você não precisa ler. Deixa que eu leio e te conto o que está escrito.”. Afinal, assim fica bem mais fácil manipular as pessoas.</p>



<p>Isso tudo é muito significativo para explicar o Brasil de hoje. Até a chegada da família real em 1808, fugindo do Napoleão, o Brasil não tinha nenhuma escola ou universidade. As poucas pessoas que aprendiam a ler e escrever, eram ensinadas em casa, em sua maioria pessoas ligadas à igreja. Mesmo depois da chegada de Dom João VI e sua patota no Rio de Janeiro, a educação pouco evoluiu. Até porque a simples venda de livros era proibida, principalmente livros que pudessem inflamar quaisquer ideias iluministas. Afinal, a revolução francesa assustou todos os reis do mundo, sem falar que os Estados Unidos, àquela altura, já era um país livre e vivendo uma república. Quando a corte portuguesa voltou para Lisboa em 1821, praticamente 90% da população do Brasil era analfabeta, sem contar que mais da metade dessa população era de negros escravos. Dom Pedro II, sabidamente um intelectual, incentivou a criação de escolas e universidades, mas de maneira geral, a educação era toda ligada a padres e freiras. Ainda seguíamos atrelados incondicionalmente ao clero.</p>



<p>O golpe militar de 15 de novembro de 1889, que culminou na proclamação da república, ao elaborar a constituição de 1891, pela primeira vez coloca o Brasil como um estado laico. Sim, finalmente estávamos livres da influência da igreja na política. Oficialmente, era o que deveria acontecer. Na prática, a igreja continuou influenciando governo após governo. Isso não é só aqui no Brasil não. Praticamente toda a América Latina é essencialmente católica e bispos e padres são formadores de opinião muito influentes nas sociedades.</p>



<p>A religião é uma das coisas mais paradoxais da humanidade. Da mesma maneira que alimenta a alma das pessoas com paz, espiritualidade e compaixão, também envenena a sociedade com dogmas moralistas e castradores. Mas, enfim, são escolhas, que cada um faz, de acordo com os seus princípios e crenças. Justamente por isso, ela não deveria se misturar com a política. Porque se as duas coisas se misturam, o estado vai querer dizer o que eu, que não tenho crença em determinada religião, devo fazer ou deixar de fazer por princípios dogmáticos e não puramente sociais. Hoje em dia, as coisas se tornam ainda mais turbulentas, pois temos uma nova espécie de religioso, os evangélicos conservadores. Alguns deles estão no poder legislativo, formando a bancada da bíblia.</p>



<p>Mas se a gente pensar racionalmente, fica realmente difícil dissociar política de religião, porque tudo é política. Futebol é política, música é política, jornalismo é política. Porém, uma coisa é fazer política, outra coisa é exercer poder. Fazer política é debater ideias com a sociedade em geral, através de representantes, como padres e pastores, que não ocupam cargos públicos, mas tem representatividade, assim como sindicalistas, artistas famosos e etc. Exercer poder é negar que uma menina de onze anos de idade, que foi estuprada e engravidou, faça um aborto, porque considera o aborto imoral e anticristão. Exercer poder é normalizar a violência contra homossexuais, pois eles são considerados impuros, e estabelecer que a única formatação possível de uma família é entre um homem e uma mulher. Exercer poder é vincular religiões de origens africanas ao maligno, demonizando-as.</p>



<p>Já passou da hora da religião ser separada da política, no sentido de exercer esse poder castrador e vil. Também já passou da hora de políticos que se amparam na religião para conseguir popularidade serem extirpados da vida pública! Eu me recuso a pactuar com um governo que se faz valer de slogans fascistas e que colocam Deus acima de todos. Deus este, pelo qual não tenho nenhuma simpatia, afinal, é um deus que valida a violência e a intolerância. Não sou contra a religiosidade e espiritualidade de cada individuo, muito pelo contrário. Acho louvável. Mas, dada a pluralidade de crenças e divindades, há de se ter respeito e tolerância com as diferente religiosidades. Assim, cenas lamentáveis como as vistas em Aparecida poderiam ser evitadas. Já as religiões como instituições, que visam ter influência e poder perante o estado, que não pagam impostos, lucram quantias obscenas e querem fazer parte do governo, essas devem ser combatidas. O exemplo está diante de nós. Um governo guiado pela ré-ligião, assim mesmo, de marcha ré. Um governo que, se permanecer no poder, daqui pra frente, vai ser só pra trás. E, como acabamos de ver, o passado com a religião no comando não foi nada bom para a humanidade.</p>
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		<title>O Fascismo bate à porta.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Argollo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Mar 2023 20:17:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[História]]></category>
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					<description><![CDATA[Texto publicado em outubro de 2022 em minhas redes sociais. No dia 2 de agosto deste ano, um homem de 39 anos entrou na biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, pegou alguns livros, entre eles o infame Mein Kampf, de Adolf Hitler, e circulou pela biblioteca, sem preocupação nenhuma de esconder os [&#8230;]]]></description>
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<p><em>Texto publicado em outubro de 2022 em minhas redes sociais.</em></p>



<p>No dia 2 de agosto deste ano, um homem de 39 anos entrou na biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, pegou alguns livros, entre eles o infame Mein Kampf, de Adolf Hitler, e circulou pela biblioteca, sem preocupação nenhuma de esconder os livros que carregava, até encontrar um lugar para se sentar e começar sua leitura. Enquanto circulava pela biblioteca, fez alguns comentários racistas contra algumas das pessoas que estavam ali estudando. Ao ser confrontado, levantou a voz. Disse que não gostava mesmo de negros e nem de “viados”. Chegou a fazer a saudação nazista enquanto continuava a proferir as maiores barbaridades com orgulho. A polícia foi acionada e o homem acabou sendo detido.</p>



<p>O que impressiona neste ocorrido é que o homem em questão não tem nenhum receio ao demonstrar sua ideologia distorcida. O mesmo tipo de comportamento tem sido registrado ao longo dos últimos anos com uma frequência alarmante. Foram muitos os vídeos que circularam na internet durante a pandemia de entregadores negros sendo destratados e humilhados por brancos, por exemplo. Claro, alguém pode argumentar que o racismo sempre existiu, a diferença é que agora tem celular com câmera e redes sociais para registrar e divulgar isso. De fato. Mas vai além disso. Até meados da década de 2010, por mais que esses casos ocorressem, não se via nas pessoas esse orgulho. Quem era flagrado cometendo racismo procurava esconder sua identidade, evitava ser filmado, tentava cobrir o rosto. Atualmente, essas pessoas parecem fazer questão de serem vistas.</p>



<p>Se o racismo sempre existiu, por que dar atenção a essas notícias? É porque elas são um dos claros sinais de que o Brasil está se encaminhando para um período de retrocesso, reacionarismo, violência, cerceamento de liberdades e discriminação. Enfim, um regime fascista. Para entender esses sinais, precisamos entender minimamente o que é o fascismo.</p>



<p>Na Roma Antiga o símbolo dos magistrados oficiais de justiça, ou seja os juízes, tinham como insígnia um machado cujo corpo eram várias varetas de madeira, ou feixes, amarrados juntos, e acima atada a este corpo uma lâmina de machado. Essa simbologia representava que uma vareta sozinha pode ser quebrada facilmente, mas muitas varetas juntas tornam-se muito mais difícil de serem quebradas e a lâmina do machado atada às varetas representava o rigor da lei. No início do século XX, logo após o fim da Primeira Guerra Mundial, a Itália vivia uma situação dificílima. Mesmo tendo lutado ao lado dos vencedores, ela foi ignorada na hora da partilha de territórios e ganhos da guerra. Começaram a se reunir então grupos de militares, soldados que lutaram na guerra, para insurgirem contra o avanço do bolchevismo e a favor do nacionalismo. O principal líder deste grupo era Benito Mussolini. Ele organizou esses grupos num partido e utilizou a simbologia romana do machado feito de feixes de madeira. Feixe em italiano é fascio, que no plural fica fasci. Assim nasceu o Partito Nazionale Fascista.</p>



<p>Mas depois disso, o termo fascismo se tornou muito mais plural e passou a designar todo regime político autoritário, militarizado, conservador e truculento. Assim, o nazismo é considerado um regime fascista, assim como foi o governo de Franco na Espanha, de Salazar em Portugal, de Pinochet no Chile e de Getúlio Vargas, durante o Estado Novo, no Brasil. Ah, mas então os regimes de Stalin, Mao Tse Tung, Fidel Castro e etc também eram fascistas! Não exatamente. Foram sim regimes ditatoriais, autoritários e igualmente truculentos, é verdade. O que os difere dos regimes fascistas são algumas diferenças políticas. As ditaduras de esquerda, como as citadas, não se fazem valer de apoio de religiões, promovem uma distribuição de renda, ainda que injusta e desigual, e realizam um aparelhamento total do estado no setor industrial e de serviços. Já o fascismo se faz valer de valores tradicionais e religiosos, promove a meritocracia como justificativa de sua superioridade e cultua a propriedade privada, mas mantém todos os setores da economia sob suas rédeas curtas. Veja bem, não existe melhor ou pior. Ambos são péssimos. Mas o fascismo tem algumas características específicas que são realmente perigosas, e estão batendo na nossa porta.</p>



<p>O fascismo usa o passado para inspirar um nacionalismo exagerado. Aquele pensamento de que no passado é que era bom, nos tempos áureos! Mas que passado era esse? Mussolini, por exemplo, exaltava o império romano como época gloriosa da Itália, sendo que a Itália nem existia naquela época. O império romano e a criação da Itália enquanto país nada tem a ver um com o outro, a não ser um pequeno território geográfico. Hitler exaltava justamente os povos germânicos que combateram os romanos, sendo que boa parte da Alemanha há menos de meio século antes era, em sua grande parte, território do império austro-húngaro. Mas, de qualquer forma, isso sempre funciona. Aqui no Brasil, não tem sido necessário ir tão longe no passado. Mas com certeza, você já ouviu alguém dizendo que no tempo da ditadura militar o Brasil era melhor. Eu mesmo já ouvi gente dizendo que o governo militar torturava e matava de vez em quando sim. Mas só o fazia com quem merecia, quem era vagabundo e comunista. Claro que isso é uma mentira nojenta. Mas ainda que não fosse, não há humanidade nenhuma numa fala dessas, afinal tortura e assassinato não devem ser tolerados em quaisquer circunstâncias.</p>



<p>Mas este é outro ponto do fascismo. O culto a violência. O fascismo é essencialmente sobre superioridade. E que maneira melhor de se demonstrar superioridade do que massacrando seu oponente? Por isso, todo fascismo tende a ser militarizado e incentiva o aprendizado da luta já na infância. Incentiva seus seguidores a possuírem armas e identificar, e abater se possível, seus inimigos. A maior prova disso foi a Juventude Hitlerista e a Liga das Moças Alemãs, destacamentos paramilitares que recrutavam, treinavam e armavam jovens e mulheres. Mas tudo na vida é questão de parâmetros. Se o fascismo prima pela superioridade, ele precisa ser superior a alguém. Aqui podemos facilmente voltar ao início deste texto. Essa sanha por superioridade leva à discriminação de minorias. Uma vez que o fascismo está sempre atrelado ao tradicionalismo, conservadorismo e dogmas religiosos, obviamente negros, homossexuais, judeus, mulheres e etc , não estarão em boas mãos. E quem apoia regime fascista se sente no direito de externar esse tipo de sentimento, com orgulho de ser superior, como se fazer comentários racistas fosse seu direito, um exercício da liberdade de expressão. O que nos leva a outro ponto importante a se conhecer do fascismo.</p>



<p>O inimigo. Ou os inimigos. O fascismo se caracteriza também por criar em torno deste nacionalismo maravilhoso, que desagua na superioridade nacional, e nessa necessidade de se armar, um clima de tensão e perigo constante, de ameaça. Precisamos combater o inimigo! Para os nazistas eram os judeus e os comunistas, para Mussolini eram os traidores da Primeira Guerra, França e Inglaterra, que não deram à Itália o que lhe era de direito, além, é claro, de combater os comunistas. Aqui cabe um parênteses. Por que todo mundo odiava tanto os comunistas? Perceba que, nessa época, pós Primeira Guerra, a Rússia acabara de fazer a Revolução de 1917, e os ideais de russos, em especial no que dizia respeito à classe média-baixa de trabalhadores, assustavam as elites aristocratas. Lembrando que o fascismo preza a propriedade privada e mantém laços estreitos com o empresariado, de maneira geral. Basta ver, como exemplo, a lista de grandes empresas alemãs que apoiaram e se beneficiaram com o nazismo. Fecha parênteses. O inimigo pode ser qualquer um. Ainda que hoje o comunismo já esteja liquidado como forma efetiva de governo, ele ainda é um fantasma que assombra o Brasil, por exemplo. Mas por aqui outros inimigos têm sido elencados. Entre eles estão a mídia e o Supremo Tribunal Federal.</p>



<p>Outro fator importante para o fascismo é ter a frente uma figura carismática, que vai falar ao povo e servir como exemplo. Não precisa ser uma pessoa muito inteligente ou culta. Mas precisa ser imponente, ter convicção e ser destemido. Cria-se em torno dessa pessoa uma tal aura de poder, que ele passa a ser admirado, torna-se um&#8230; mito. Hitler, por exemplo, não era um homem brilhante. Pelo contrário. Foi muito rejeitado até alcançar a chancelaria da Alemanha. Tentou ser pintor, arquiteto e sempre foi rejeitado nas escolas superiores. Até no exército ele foi rejeitado, por ser muito baixo. Também era pouco afeito á leitura e escrevia mal. Diz-se que seu livro, Mein Kampf, teve que ser todo reescrito por outras pessoas para poder ser compreendido. Mas era um orador insuperável, tinha boa postura e falava o que as pessoas maltratadas pela crise econômica e pela vergonha da derrota na guerra queriam ouvir. E mais. Junto com a promessa de uma Alemanha melhor, com um governo sem corrupção, Hitler injetava nas pessoas o discurso de ódios aos judeus. Discurso esse que era aceito, considerado normal, e a violência contra os judeus não só era tolerada, como incentivada por muitos alemães.</p>



<p>Tá. Depois de tudo isso, vamos ao que realmente interessa neste texto. Os sinais. De tudo que você leu até agora, em vários momentos você deve ter lembrado de uma ou outra fala ou situação acontecidas no governo Bolsonaro até agora. Se não lembrou de nenhuma, eu vou te lembrar de algumas. O fascismo se faz valer de valores tradicionais. O lema do partido nazista era Deutschland über alles, que significa Alemanha acima de tudo. O slogan da campanha de Bolsonaro em 2018 era Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. O lema Deus, Pátria e Família, usado atualmente por Bolsonaro, era o lema do regime salazarista em Portugal. O governo Bolsonaro exalta o Golpe Militar de 1964, cultua torturadores e, até hoje, Bolsonaro nunca veio a público se retratar sobre sua fala num programa de TV nos anos 90, em que disse que a ditadura matou pouco. Se não se retratou até agora, é porque ainda acredita nisso.</p>



<p>Sobre o culto à violência, militarização e exaltação ás armas de fogo, o governo Bolsonaro é uma verdadeira festa. Além de elogiar torturador, é um governo que praticamente lierou o acesso a armas de fogo para qualquer pessoa. O exército já disse que não tem capacidade para analisar cada pedido de CAC que recebe, já está provado que criminosos estão tirando a licença de CAC e comprando armas para o crime organizado. O número de mortes por arma de fogo disparou (com o perdão do jogo de palavras), bem como o de violência doméstica. E aqui cabe outro ponto importante. O presidente justifica que todo cidadão deve ter uma arma para proteger a sua liberdade, porque a liberdade vale mais que a sua própria vida. Perceba que ele não diz que é para o cidadão proteger seus bens, sua casa ou sua família. É sua liberdade. Isso significa que se um governo do qual você é contra entrar no poder, ainda que democraticamente, o governo atual pode fazer você acreditar que quem está no poder vai acabar com a sua liberdade. Neste caso, ainda bem que você tem uma arma, não é? E o caos estará instaurado.</p>



<p>Quanto a criar inimigos, já pudemos ver que Bolsonaro é pródigo! Já culpou ONGs pelos incêndios na Amazônia, se coloca ainda hoje como paladino da Covid-19, sendo único chefe de estado que teve a coragem de se impor contra as políticas de contenção, todas equivocadas, é claro! Desta forma, transformou a ciência e o cuidado com a vida das pessoas em seus inimigos. Preciso falar de vacina? Acho que não, né&#8230; Até porque os inimigos mais emblemáticos do governo Bolsonaro são a mídia e o STF. Para Bolsonaro, 99% da imprensa está contra ele, e contra o Brasil (aquele 1% que é vagabundo, como diria a canção, eu prefiro não citar). Mas isso é perigosíssimo, faz com que seus apoiadores se informem por redes sociais, onde notícias falsas são noticiadas e notícias verdadeiras são desacreditadas, colocadas como parte de um verdadeiro complô. Colocar toda a mídia como inimiga nos deixa a um espaço perigosamente curto da censura. Da mesma maneira, ser combativo, insolente até, em relação ao STF é igualmente perigoso para a democracia. Pois serve de justificativa barata para que, mais uma vez no poder, Bolsonaro possa aparelhar de vez o judiciário ao seu favor. Aí, cem anos de sigilo vai ser coisa pouca. Aliás, vale mencionar: sabe que presidente aparelhou o STF logo que assumiu o cargo, para poder fazer o que bem entendesse? Sim, ele mesmo! Hugo Chavez.</p>



<p>Estes são só alguns dos sinais de que estamos nos encaminhando para um governo autocrata e fascista. Afinal, lembre-se que nenhum regime fascista surgiu do dia para a noite, eles foram todos construídos á partir de oportunidades, situações socioeconômicas e muito discurso repetido à exaustão. E todos os regimes fascistas acabaram em mortes, censura, cerceamento de liberdades e desigualdade para o povo. A maioria das pessoas com quem converso tem muitas reservas quanto ao ex-presidente Lula. Todos os escândalos de corrupção realmente aconteceram e foram lamentáveis. Mas não podemos esquecer que, além de o atual governo também estar atolado em corrupção, que é cegamente negada por seus seguidores e blindada por sigilos centenários e aparelhamento na polícia federal, a conjuntura política é muito diferente. A grande maioria dos participantes daquele cenário de escândalos está preso ou fora de cargos públicos. Além do mais, a própria tecnologia e consciência política das pessoas evoluiu muito. É muito mais difícil encobrir escândalos e a população é muito mais atuante denunciando e cobrando a classe política. O antipetismo vigente é um câncer. Está cegando e anestesiando as pessoas. Faz com que não se perceba que escolher entre dois políticos com histórico de corrupção, a escolha mais lógica é o candidato que, em momento nenhum ameaçou a democracia, e não o candidato que em toda a sua carreira política, dá sinais de autoritarismo e fascismo. Ficou célebre a seguinte frase do pensador, escritor e dramaturgo Bertolt Brecht: “A cadela do fascismo está sempre no cio.”. Cabe a nós não deixar que ela cruze e tenha filhotes.</p>
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		<title>Uma história do Peru!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Argollo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Feb 2023 22:09:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[História]]></category>
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<p><em>Texto publicado no Diário do Sudoeste em maio de 2020.</em></p>



<p>A verdade é dura, muitas vezes difícil de engolir.&nbsp; Mas ela há de prevalecer! Por isso já quero começar este texto com uma dessas duras verdades, que deixarão o caminho livre e sem dúvidas ou desconfianças, para que eu possa falar sobre o um dos episódios mais sangrentos e reveladores da história. Você sabe que o nosso planeta teve, espalhado por vários pontos distantes entre si, povos que desenvolveram civilizações incríveis. E, mesmo sem que haja nenhum vestígio de que esses povos tenham se comunicado, há várias semelhanças entre eles. Uma delas é a presença de pirâmides como templos religiosos. Há pirâmides no Egito, bem como nas civilizações Maia, Asteca e Inca. Essa coincidência é explicada por uma forte corrente teórica que diz que extraterrestres visitaram estes povos e os ajudaram a construir tais edificações, que, além de tudo era um tipo de engenharia complexa para ser concebida por povos tão primitivos. E esta é a grande verdade que eu venho lhes trazer: Esse papo de ETs construindo pirâmides é uma baita duma conversa fiada.&nbsp; Já está provado que as pirâmides de todas as civilizações citadas, foram concebidas, planejadas e executadas por seres humanos, que tinham, sim senhor, conhecimentos avançados de engenharia, astronomia, matemática e etc, mesmo em tempos tão remotos.</p>



<p>Um desses povos, talvez um dos mais impressionantes, são nossos vizinhos, os Incas. Infelizmente, conhecemos muito pouco da origem dos povos nativos da América. Estudos apontam que o ser humano já habitava todo o continente americano há pelo menos 12 mil anos. De lá pra cá, essa turma se espalhou, e grupos foram se adaptando e se estabelecendo nos mais diferentes lugares. Em especial grandes populações se desenvolveram muito na chamada Mesoamérica, região onde hoje fica o sul dos Estados Unidos, o México, Guatemala, El Salvador, Cuba e Honduras. Ali surgiram os Maia e, posteriormente, os Asteca. Possivelmente, algumas tribos já praticantes da cultura politeísta, de algumas técnicas agrícolas e senso de organização social, migraram para o sul e se estabeleceram na rica região dos Andes. Ali, em um tempo consideravelmente curto desenvolveram uma civilização incrível, organizada, rica e desenvolvida. Os Tahuantinsuyu.</p>



<p>Apesar de não ser esta a palavra ideal, fica mais fácil de se entender dizendo que o povo Tahuantinsuyu era um império que englobava&nbsp; várias tribos diferentes em um território vastíssimo, praticamente toda a costa da América do Sul. Em termos de tamanho territorial, eles foram o maior império indígena de toda a América. Como eu disse, a palavra império não é a ideal para explicar este povo. Na língua quéchua, Tahuantinsuyu significa “as quatro direções”, o que já demonstra o conceito de expansão deles. Mas funcionava mais como uma confederação. Existia uma cidade-estado, Cuzco (que está lá até hoje) e havia um soberano, uma espécie de líder espiritual, um sacerdote. Mas cada região mantinha sua língua e sua cultura, apenas era identificada como parte dos Tahuantinsuyu porque pagavam impostos a cidade-estado. Ah, sim, o líder deles recebia o título de Sapa Inka, que significa Grande Governante. Aí, quando os espanhóis chegaram por lá, acharam muito difícil falar Tahuantinsuyu e ouviam falar de inca pra cá, inca pra lá&#8230; e acabaram chamando todo mundo de inca.</p>



<p>Apesar de haver povos milenares na região dos Andes, os Incas mesmo, se estabeleceram como conhecemos no início do século XV, por volta de 1430. Em um século construíram uma civilização incrível, com estradas pavimentadas, aquedutos, agricultura com técnicas impressionantes de curva de nível e irrigação e cidades com prédios feitos de pedra muito resistentes, para aguentar os frequentes terremotos que atingem a região com certa frequência até hoje. Na virada dos séculos XV para XVI, os Incas vivam seu apogeu sob o comando do Sapa Inka Huayna Capac. A região que hoje compreende a Bolívia, o Peru e Equador era riquíssima em ouro e prata, e os Incas haviam dominado o manuseio desses metais, que eram usados para confecção de armas, utensílios e adornos. Tudo ia muito bem.</p>



<p>Enquanto isso, na Europa, o rei espanhol Fernando de Aragão foi convencido a financiar uma expedição chefiada por Cristóvão Colombo para tentar chegar na índia indo reto a oeste toda vida, ao invés de dar a volta na África. Em 1492 Colombo chegou nas Bahamas. Anos mais tarde Américo Vespúcio navega da América Central até a costa do Brasil e conclui estar diante de um novo continente, que acaba sendo batizado com o seu nome. Em 1513 o espanhol Vasco Núñez de Balboa cruza o a pé o estreito do Panamá e se depara com um novo oceano, ainda desconhecido, e que seria oficialmente descoberto pelo português Fernão de Magalhães numa jornada épica que eu já contei aqui, num texto publicado em setembro do ano passado. Em 1519, Nuñez de Balboa é morto no Panamá por Francisco Pizarro, o truculento explorador espanhol que iria derrubar o império Inca.</p>



<p>Os primeiros europeus, portugueses e espanhóis, que se estabeleceram na costa brasileira, em especial entre os atuais estados de São Paulo e Santa Catarina, já sabiam que havia uma tribo muito numerosa e riquíssima em pedras preciosas, que viviam em montanhas geladas a oeste. Muitos deles tentaram chegar lá, mas falharam. Mas foram avançando oeste adentro, criando vilarejos como Assunción, atual capital do Paraguai, e um ou outro espanhol conseguiu ter contato com algumas tribos Incas próximas a Potosí, na atual Bolívia. Da mesma forma, Pizarro chegou a conduzir uma expedição em 1527 que chegou até a atual Colômbia, onde os espanhóis tiveram contato com outras tribos, também integrantes do império Inca. Esse foi o começo do fim. Os espanhóis levaram até os Incas a varíola e a gripe. Doenças que eles nunca viram antes e não tinham nenhuma imunidade. Muitos morreram. Muitos mesmo, incluindo o Sapa Inka Huayna Capac. Seus dois filhos, Huáscar e Atahualpa deram início a uma guerra civil que dividiu e enfraqueceu o império. Foi neste cenário, em 1532, que Pizarro finalmente chegou a Cuzco. Atahualpa parecia ter vencido a guerra e ocupava o posto de Sapa Inka quando Pizarro o chamou para uma conversinha amigável. Que era uma armadilha, claro. Atahualpa foi preso e executado pouco tempo depois.</p>



<p>Por fim, os espanhóis tomaram as duas principais cidades dos Incas, Cuzco e Quito, atual capital do Equador, sugaram toas as riquezas inundando a Europa com ouro e prata andinos, escravizaram e mataram os nativos e o resto é história. Entretanto a força dos Incas ainda é conhecida e resiste. A cidade de Machu Picchu ainda está lá para ser visitada e é uma das sete maravilhas do mundo, o quéchua ainda é um idioma falado e considerado oficial no Peru, Equador e Bolívia e ainda há descendentes diretos daqueles povos vivendo naquela região até hoje, mantendo vivas muitas das suas tradições. Agora me fala. Um povo que passou tudo o que passou e tá aí até hoje, construiu tanta coisa&#8230; você acha que essa turma ia depender de uns ETs mequetrefes pra construir uma pirâmide?</p>
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		<title>Gosto de infância</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Argollo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Feb 2023 21:49:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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<p><em>Texto publicado no Diário do Sudoeste em junho de 2020</em></p>



<p>Usar determinadas palavras para dar significado a coisas tão difíceis de descrever, como sentimentos, sentidos e memórias, é uma das coisas que me faz amar tanto escrever. Acho lindo dizer que tal comida tem gosto de infância, por exemplo. Porque é uma maneira muito objetiva de definir uma coisa muito particular. O sabor da minha infância é bem diferente do sabor da sua infância. Ainda assim, nós dois entendemos claramente, e da mesma maneira, o que esta expressão quer dizer. E já que estamos falando de sabor de infância, vou contar pra você algo que me deu muita alegria essa semana.</p>



<p>Uns dias atrás estive com a minha mãe e ela me ensinou a&nbsp; fazer&nbsp; virado de banana! Trata-se de um doce muito simples feito com apenas cinco ingredientes: banana, açúcar, &nbsp;farinha de milho, sal e óleo. O virado de banana é a minha definição de gosto de infância. Meu avô materno morava na pequena São Bento do Sapucaí, cidade pequenininha no alto da serra da Mantiqueira. Na época que ia passar as férias escolares lá, era uma cidade pacata. Hoje em dia é uma cidade badalada de turismo ecológico na divisa entre os estados de São Paulo e Minas Gerais. Ali viviam meu avô e suas duas irmãs. Isso porque minha avó morreu quando minha mãe era criança. Desde então, meu avô, que na época morava em São Paulo, após encaminhar os filhos, mudou-se para São Bento com minhas tias avós. Passei muitas férias na casa do meu avô. De lá trago as memórias mais felizes da minha vida até hoje. Já vivi muita coisa, já me diverti muito&#8230; mas acho que nunca vivi uma felicidade tão pura quanto a que experimentei&nbsp; em São Bento. Corria pelas ruas, às vezes sozinho, às vezes com meus primos, com o meu avô ia pescar lambaris, assistia aos jogos do Corinthians, desenhava, ouvia histórias&#8230; era muito mágico, de verdade.</p>



<p>No quesito comida, tem três pratos que sempre tinha à mesa por lá: lambari frito que pescávamos, pepino ralado com pimenta, limão e salsinha para acompanhar a salada do almoço e o virado de banana. O lambari frito eu comi raríssimas vezes depois que meu avô morreu. Já o pepino e o virado de banana, minha mãe sempre soube fazer exatamente como minha tia avó fazia lá em São Bento. &nbsp;Ano passado me mudei da casa dos meus pais, para construir minha família com a minha namorada. Desde então, faço o pepino ralado com frequência, pois é muito simples. Já o virado de banana, eu nunca me arrisquei a tentar fazer. Até que minha mãe disse que faria e eu fui acompanhar, para aprender a fazer. No fim das contas, ela só foi me dando as instruções e eu mesmo fiz. E não é que ficou com o mesmo sabor do que minha tia avó fazia em São Bento? Finalmente aprendi e vou poder fazer em casa sempre que estiver em casa, sem precisar depender da minha mãe!</p>



<p>Se você ficou querendo saber como é esse danado desse virado de banana, vou explicar aqui. Se você tentar fazer e gostar, pode entrar em contato comigo pra me contar. Primeiro detalhe é usar banana prata ou nanica (preferência para a prata). Entre 6 e 8 bananas é uma quantidade boa. Corte as bananas em rodelas e ponha numa frigideira com um pouco de óleo e vá mexendo aos poucos, deixando a banana derreter. Depois que já deu uma boa derretida, acrescente três colheres de sopa bem cheias de açúcar e segue mexendo. Um dos segredos é uma pitada de sal neste momento, que vai equilibrar e não deixar muito doce. Mas é uma pitada mesmo, nada mais. Depois que a banana já derreteu bem e começou a pegar cor junto do açúcar, vá acrescentando a farinha de milho aos poucos. A farinha de milho não tem quantidade exata, tem que ir acrescentando e mexendo sem parar, até que se chegue numa consistência de massa de pão. Mas não deixe secar muito, essa é a dificuldade de explicar&#8230; só vendo mesmo. Mas quando essa massa começa a ficar mais homogênea e consistente, e a cor começa a chegar num marrom mais escurinho, é hora de tirar do fogo. Já passa essa massa para uma vasilha de vidro, espalha certinho, de maneira uniforme. Ali ela vai secar. Esfriou um pouco, já pode cortar e comer. Esse virado morninho com um café passado na hora não tem coisa igual nesse mundo. Nada se compara ao doce e maravilhoso gosto de infância!</p>
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		<title>No Cartório</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Argollo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Feb 2023 20:15:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>
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					<description><![CDATA[Texto publicado nas redes sociais em abril de 2020.  &#8211; Bom dia, em que posso ajudá-lo? &#8211; Bom dia. Eu vim registrar o meu filho, que acabou de nascer. &#8211; Opa, que beleza! Meus parabéns. &#8211; Brigado. &#8211; E qual vai ser o nome? &#8211; Enzo Pereira Lima &#8211; Ih, mas aí não pode. Não pode ser outro nome? &#8211; Como assim [&#8230;]]]></description>
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<p><em>Texto publicado nas redes sociais em abril de 2020.</em></p>



<p> &#8211; Bom dia, em que posso ajudá-lo?<br> &#8211; Bom dia. Eu vim registrar o meu filho, que acabou de nascer.<br> &#8211; Opa, que beleza! Meus parabéns.<br> &#8211; Brigado.<br> &#8211; E qual vai ser o nome?<br> &#8211; Enzo Pereira Lima<br> &#8211; Ih, mas aí não pode. Não pode ser outro nome?<br> &#8211; Como assim não pode, moço? Eu não posso escolher o nome que eu quero pro meu filho?<br> &#8211; Pode, mas tem umas restrições aí, né&#8230; tem esse decreto novo do nosso querido capitão, o presidente&#8230;<br> &#8211; Que decreto, cara?<br> &#8211; Já deu o limite aí pra Enzo, Valentina, esses nomes da moda&#8230;<br> &#8211; Como assim?<br> &#8211; Chegou num número aí&#8230; sei lá&#8230; um milhão. Aí não pode mais. Quem colocou esses nomes colocou, quem não colocou não coloca mais.<br> &#8211; Mas não faz o menor sentido isso.<br> &#8211; Tô aqui só cumprindo ordem. Mas não pode.<br> &#8211; Puta merda. E agora, eu nem pensei em outro nome.<br> &#8211; É, eu não queria estar na tua pele não.<br> &#8211; Deixa eu ligar pra minha mulher, peraí. Alô, amor, olha, deu problema aqui. Não pode registrar o menino como Enzo. É, não sei, porra, mas não pode. O presidente não deixa. Como assim, que presidente, Helena, o presidente do Brasil, porra! Sei lá&#8230; tá, por mim tá bom. Vou ver aqui. Beijo. Olha, ela falou pra colocar o nome do avô dela, que veio da Espanha e tal&#8230; então vai ser Juan. Juan Pereira Lima;<br> &#8211; Ih, mas aí não pode também.<br> &#8211; Ah, você tá brincando, né, amigo. Como assim não pode?<br> &#8211; É, Juan, com essa pronúncia mesmo, &#8220;Ruán&#8221;&#8230; ?<br> &#8211; Isso, é o nome do avô da minha mulher.<br> &#8211; Então, é que Juan é meio que nome de cubano, né, soa meio comunista. Pega mal pra nós. O decreto do capitão também fala de nomes estrangeiros que lembrem Cuba, Venezuela&#8230; aí tem que cortar mesmo.<br> &#8211; Puta que pariu!<br> &#8211; Mas olha, se o senhor quer nome estrangeiro, nós temos umas sugestões aqui. Por exemplo, Washington.<br> &#8211; Mas aí, me fode. Não sei nem escrever isso.<br> &#8211; Pois é, tem essa exigência, além da pronúncia. Estamos liberados a registrar criança com esse nome mediante comprovação dos pais conseguindo soletrar o nome e fazendo a pronúncia correta. &#8220;Uáshintan&#8221;.<br> &#8211; Porra, mas aí eu tenho que fazer um curso de inglês pra falar o nome do meu filho?<br> &#8211; Ah sim. Estamos inclusive com um convênio com a Wizard. O senhor pega esse formulário aqui e não paga matrícula e tem dez por cento de desconto na mensalidade. E se falar que foi o Valdir que indicou, que sou eu, no caso, eu ganho uma comissãozinha. Dá essa força pra nós!<br> &#8211; Que mané Wizard, cara! Eu quero só registrar meu filho!<br> &#8211; Calma, senhor. Não precisa gritar.<br> &#8211; Calma o caralho! Não posso batizar o meu filho com o nome que eu quero, não sei que nome vou colocar, minha mulher vai ficar uma fera comigo&#8230; que que eu faço agora? Minha mulher vai me matar&#8230;<br> &#8211; Olha, posso dar outra sugestão. Se o senhor colocar o nome no menino de Jair, ganha um cupom de cinquenta reais em compras na Havan. Se colocar Jair Messias, registrando aqui pelo meu computador, eu ganho uma comissãozinha. Dá essa força aí pra nós.<br> &#8211; Nem fodendo. Vou embora. Vou conversar com a minha mulher e outro dia eu volto, se ela não me matar, por eu não conseguir fazer uma coisa tão básica como registrar o meu filho.<br> &#8211; É, eu te entendo, senhor. Espero que fique tudo bem e vocês escolham um nome que os satisfaça e que seja permitido pela nova legislação. Ainda bem que meu filho nasceu em 2017, antes dessa lei. Não tive esses problemas.<br> &#8211; É mesmo? E como chama o seu filho?<br> &#8211; Enzo.</p>
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