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Crônicas Música

Quero ser Kurt Cobain e Everglade

Era o último show da banda no ano. Dia 31 de dezembro de 1993 em Oakland, California. O Nirvana estava em turnê divulgando o disco In Utero. Ao final daquele ano, incluíram um set acústico no meio do show, motivados pela boa apresentação gravada em New York um mês antes, que seria lançada pela MTV no ano seguinte. Foi durante esse set acústico em Oakland que tudo aconteceu. A banda tocava Jesus Doesn’t Want Me For a Sunbeam, e Kurt Cobain cantava olhando fixamente para um ponto específico na plateia. Abruptamente, no meio da música, ele se levanta, joga o violão no chão e corre para a beira do palco apontando alguma coisa para os seguranças.

Naquela noite, não foi só uma canção que Kurt interrompeu. Mas também uma tentativa de assédio sexual. Ele viu que um homem forçava o contato com uma garota, que estava visivelmente incomodada e amedrontada. Ao serem avisados pelo vocalista da banda, eles renderam o abusador e o colocaram pra fora. No percurso para a saída, escoltado pelos seguranças, a banda zombava dele e incentivava o público a fazer o mesmo. Em seguida, o show foi retomado. E, principalmente o público masculino, pôde sair de lá com uma grande lição aprendida.

O mundo do rock n’ roll sempre foi muito machista e sexista. Sim, as mulheres sempre estiveram presente. Mas em muito menor escala e sob um tratamento bem diferente. Veja Karen Carpenter, por exemplo. Uma cantora impecável e excelente baterista. Mas ela se sentia pressionada e acabou ficando obcecada por ter uma aparência perfeita, e morreu por causa de uma anorexia nervosa. As coisas só começaram a mudar no fim dos anos 80, quando algumas garotas ligadas a cena punk de Olympia, Washington, se juntaram e criaram o movimento Riot Grrl. Bandas como Bikini Kill e Bratmobile impulsionaram uma cena que fez pipocar bandas de garotas, inicialmente nos Estados Unidos e depois ao redor do mundo, fazendo som rápido e agressivo falando sobre feminismo, igualdade, misoginia, padrões de beleza, e muito mais.

Recentemente, li o livro A Dor Comum, escrito por Manuela D’Ávila e Cintia Chagas, falando essencialmente sobre violência doméstica, mas um tema que acaba falando de feminismo e do protagonismo das mulheres. Apesar de ser um livro curto, basicamente um diálogo, não ter nenhuma profundidade teórica ou filosófica, me fez pensar muito sobre o tema. Sobre a minha perspectiva do feminismo hoje, sendo pai de uma menininha que está só começando a descobrir o mundo, e casado com uma mulher que sempre foi independente, cheia de ideias e dona de si mesma.

Me é muito incômodo ler ou ouvir relatos de abusos e violência contra qualquer mulher. Sempre foi, mas agora é algo que me pega mais, me deixa mais … inconformado. Muito desse sentimento acho que é porque eu olho pra trás e me sinto revendo O Sexto Sentido. Estava tudo lá, e parece que ninguém percebia, só estamos nos dando conta agora. Imagine você que uma música que dizia: “No coletivo o que manda é a lei do pau. Quem tem esfrega nos outros, e quem não tem só se dá mal.” tocava no rádio, na MTV, e ninguém falava nada. A objetificação do corpo feminino era explícita na TV aberta nas tardes de domingo. Na época de faculdade, eu cheguei a ver caras se aproveitando de garotas muito bêbadas, ou tentando forçar um beijo, e eu, e nem meus amigos, nunca sequer cogitamos a ideia de intervir. Era tudo “normal”. E pensar nisso, especificamente, é bem angustiante.

Nesse livro que acabei de ler, a Manuela D’Ávila fala uma coisa que me pegou muito: tudo começa na palavra. Quando o cara é vagabundo, ele é desleixado, preguiçoso; quando ela é vagabunda, é promíscua, safada. Quando ele é vivido, é experiente; quando ela é vivida, é “rodada”, ou seja, promíscua de novo. Quando se quer ofender uma mulher, é sempre pro lado sexual. Puta, piranha, biscate. E quando um adolescente, aprende isso e passa a enxergar as mulheres por esse viés, o risco de ele passar a utilizar essa linguagem é muito grande. E um cara que se acostuma com isso pode acabar se tornando um abusador.

Eu tenho uma filha de dois anos em casa. E eu olho para o meu próprio passado e enxergo um monte de machismo, velado, na maioria das vezes, mas ele sempre esteve lá, desde que eu era criança. Minha filha vai crescer convivendo com meninas e meninos, cujos pais são da mesma geração que eu. Por isso, me dou conta que entender o feminismo é tão importante quanto entender de política. Aliás, entender o feminismo já é entender um pouco de política. Mas vai além. É como entender que se você sair na rua no meio de um temporal, vai se molhar, e corre o risco de ser atingido por um raio. O que me faz pensar que o feminismo deveria estar muito mais presente nas conversas entre os homens. Afinal, somos, de maneira geral, os responsáveis pelo machismo estrutural, pelo patriarcado. E não se trata de simplesmente assumir a culpa.

Lembrei de uma coisa que me chamou muito a atenção quando aconteceu, e ajuda a ilustrar esse sentimento de culpa masculina. Em março de 2000, o papa João Paulo II pediu perdão a humanidade pelos excessos e mortes violentas que a igreja católica praticou durante os anos da Inquisição. Muito bonito. Mas o que mais? Pregou a tolerância religiosa? Instruiu seus seguidores a defender os direitos dos homossexuais? Porque, simplesmente assumir a culpa e ficar por isso mesmo não causa tanto efeito. A intolerância religiosa e perseguição aos homossexuais realmente se enraizou na sociedade ocidental através da igreja católica. E, pedir perdão é o mínimo, mas tinha que ir além para evitar que isso continue acontecendo.

As feministas estão aí há cem anos tentando mostrar exatamente isso para os homens em relação ao machismo e o patriarcado. E o mais louco é que elas nem estão cobrando um pedido de perdão nem nada assim. Elas só estão dando os pulos delas pra conquistar alguma igualdade. Mas, claro que isso passa pelos homens. E a gente faz o quê? Dá uma rosa e um Sonho de Valsa no dia 8 de março. A rosa e o Sonho de Valsa tem o mesmo efeito do pedido de perdão do papa. Mas dá pra gente fazer bem mais que isso.

Agora que eu consigo olhar pra trás com esse efeito de O Sexto Sentido, e entender tudo o que aconteceu, é muito difícil entender como é possível proliferar por aí esse movimento Red Pill, assistir essa escalada de feminicídios e se limitar a se lamentar. Olha, eu não estou aqui apresentando nenhuma ideia mirabolante para resolver o problema, que é enorme e muito complexo, diga-se. Mas estou apenas propondo um debate sobre o assunto, especialmente entre os homens.

Voltando ao rock n’ roll, o movimento Riot Grrl deu protagonismo às mulheres no rock. Uma das bandas de maior destaque na cena foi a californiana L7. Uma banda com atitude punk e sonoridade garageira, com boas doses de metal. Mas para além da música, as integrantes criaram a a organização Rock for Choice, que promoveu vários festivais com grandes bandas para divulgar os direitos das mulheres, em especial pela legalização do aborto. Uma das melhores músicas da L7 foi escrita pela baixista Jennifer Finch, que morreu precocemente esse ano (2026) vítima de um câncer. Trata-se de Everglade, uma canção potente, com um riff de guitarra arrebatador e cuja letra narra a ida de uma garota a um show de rock. Ao ser assediada e empurrada na frente do palco, ela revida. “Rednecks on parade, don’t cross my line says Everglade.” E ela acaba por colocar o assediador porta afora a chutes e empurrões.

Quando eu falo que precisamos, nós homens, nos posicionar e falar mais sobre feminismo, não estou falando de buscar nenhum tipo de protagonismo. No que diz respeito aos direitos, necessidades e desejos das mulheres, o protagonismo é delas. Elas que tomam decisões, elas que fazem as escolhas (inclusive sobre temas como aborto), elas têm a voz. Mas os homens precisam não só ficar no canto observando tudo e se sentindo culpado, mas sim participar. Engrossar o coro, defender, intervir quando necessário.

Em uma entrevista, Kurt Cobain, que parecia ter compreendido algo que muitos homens ainda não compreendem, disse que a maneira mais eficiente de evitar estupros e mortes violentas de mulheres não é a simples criminalização, fazer discursos e tentar achar razões para justificar o comportamento criminoso daqueles homens. Mas sim educar os meninos adequadamente, para que eles cresçam enxergando as mulheres como iguais a eles. E ele disse isso em 1992, tá? Mais de 30 anos atrás.

Não é que homens e mulheres sejam diferentes. Todo mundo é diferente de todo mundo. Quando a personagem da música Everglade se defende de um assédio e expulsa o assediador do ambiente, ela está certa, fazendo o que tem que ser feito, porque ela se sente segura o suficiente para fazer isso. Diferente da garota que estava sendo assediada no show do Nirvana e que, ainda bem, teve a intervenção do Kurt Cobain, que fez o tinha que ser feito. Em ambas as histórias, todo mundo está certo, exceto, é claro, o abusador. O Kurt Cobain está morto. Everglade é só uma história criada por uma mulher incrível, que também está morte. Mas os abusadores ainda estão por aí. Depois de olhar para o meu passado e para o meu futuro ao lado da minha esposa e da minha filha, só posso concluir que cabe a mim ser mais Kurt Cobain e Everglade.

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