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Present Tense

Partindo do princípio de que ninguém é perfeito, podemos considerar que todo mundo tem arrependimentos. Mais que isso, à medida que os anos avançam, eles se acumulam. O que torna o conceito de nostalgia algo muito interessante. Afinal, ele consiste em olhar para o passado, não necessariamente com saudade, mas com serenidade. Arrependimentos e nostalgia. Uma das muitas dualidades que só nós, humanos, conhecemos.

Depois de terminar de ler o livro Long Road: Pearl Jam e a Trilha Sonora de Uma Geração, escrito pelo jornalista e escritor Steven Hyden e lançado pela editora Belas Letras em 2025, muitos pensamentos semelhantes aos citados acima surgiram em mim. Da mesma forma, o livro fez com que meu interesse em revisitar a obra do Pearl Jam despontasse. Abracei tudo. Tenho ouvido os álbuns da banda, que vem servindo de trilha sonora para que eu sinta cada um desses sentimentos, que incluem invariavelmente arrependimentos e muita nostalgia.

Sou contemporâneo do Pearl Jam, mas não o suficiente para ter presenciado seu auge. Quando Tem explodia em vendas e os clipes de Jeremy e Even Flow dominavam a MTV, eu tinha 9 anos e estava muito ocupado brincando com meus bonequinhos de heróis, jogando bola e assistindo aos jogos do Corinthians com o meu avô. Não que a música não fizesse parte da minha vida, ela estava lá. Mas ainda não tinha rolado aquela fagulha que precede o fogo.

Eu conheci o Pearl Jam em 1996, quando já tinha me apaixonado pelo Nirvana e começado a tocar bateria. A banda na qual eu acabara de entrar como baterista tocava Jeremy, e eu peguei emprestado o CD Tem com o vocalista para aprender a tocá-la. Ouvi o disco todo e fiquei arrepiado. Logo eu já estava com os 4 discos que o Pearl Jam lançou até então gravados numa fita. Isso sem falar nos bootlegs, que eram muito comuns na época. CDs piratas com gravações de shows, lados B e raridades.

Em 1998, eu já era um fã convertido e vibrei com o lançamento de Yield. Desde então, até o Lightning Bolt, eu comprei cada disco que a banda lançou. Claro, com exceção daquele caminhão de CDs ao vivo da turnê do Binaural, dos quais acho que tive 3 ou 4 apenas.

Me dei conta que envelheci com a banda.

O disco Binaural pode ser visto como o renascimento do Pearl Jam. Matt Cameron trouxe segurança e energia, a banda vinha de uma turnê muito bem sucedida, que rendeu inclusive um disco ao vivo, o ótimo Live On Two Legs. Nessa época eu fazia 18 anos, estava prestes a entrar na faculdade e estava cheio de esperança de que muitas mudanças viriam. Assim como tais mudanças vieram para a banda, para mim elas também vieram, mas não exatamente como esperávamos. Sim, meus primeiros anos na faculdade me trouxeram muita coisa boa, mas também trouxe muita decepção. Enquanto isso, o Pearl Jam fazia uma turnê que tinha tudo para superar sua anterior em qualidade e números, mas foi manchada pela tragédia em Roskilde, na Dinamarca, quando 9 fãs morreram pisoteados durante o show.

Em 2002 eu já planejava trancar minha matrícula na faculdade, o que fiz no ano seguinte. Era confrontado com certas verdades da vida adulta, mas me apegava a alguns sonhos da adolescência. Talvez por pura necessidade. Mas amadurecia. Foi a época que descobri que podia compor minhas próprias canções com propriedade, e me permiti abrir mão de algumas coisas, mas não de tudo. Foi quando Riot Act foi lançado. O disco em que o Pearl Jam realmente amadureceu. Basta analisar a letra de músicas como Love Boat Captain e I Am Mine pra entender isso.

Dá para eu traçar muitos outros paralelos entre a minha vida e a discografia do Pearl Jam. Da minha fase mais suja, e ao mesmo tempo divertida quando Backspacer foi lançado, até meu entendimento do envelhecer sem perder um certo inconformismo com o lançamento de Gigaton. Mas isso acabaria desviando muito do meu propósito aqui. Ainda que eu não tenha muito claro qual é. Mas, como o Pearl Jam, eu sigo em frente.

Já faz tempo que eu costumo dizer que o Pearl Jam é minha banda favorita, sempre acrescentando  de imediato que o termo “banda favorita” não se aplica aos Beatles, já que minha devoção a eles se assemelha mais a religião. Assim sendo, minha relação com a banda de Seattle é intensa, mas não é linear, como se pode esperar de uma relação tão longeva. Tive sim um período em que deixei meus heróis do grunge um pouco escanteados para me dedicar a outros gêneros e outras bandas. Mas, claro, sempre voltava a eles de vez em quando, para matar a saudade.

O livro de Steven Hyden me reconectou não só com o Pearl Jam, mas com um lado da minha personalidade que estava escanteado também. Escrevendo em primeira pessoa, com humor e personalidade, sem medo de ser parcial, o autor me remeteu ao jornalismo gonzo que me encantou na época da faculdade e me influenciou muito a querer escrever. Ao analisar detalhes da trajetória da banda sem precisar ser didático, com inúmeras referências à música, ao cinema, à cultura pop enfim, me conectou com uma época em que eu escrevia sobre música e cinema em blogs me deliciando, sem me importar se seria lido por milhares de pessoas ou só pelos meus poucos amigos igualmente alucinados por música e cinema. Prova disso é que estou aqui escrevendo isso, que não sei se é uma resenha de livro, uma crônica ou um post para um blog que não existe mais.

Vi o Pearl Jam ao vivo em 3 ocasiões. Não sei se os verei de novo. Estou convencido a não ir mais a shows de arena e grandes festivais. A comoção toda que envolve tais eventos me cansa só de pensar. Filas, ter que chegar no meio da tarde no local para esperar pelo show que só vai começar de noite, ver de muito longe, num telão, desconforto, fila pra tomar cerveja, fila pra fazer xixi, horas depois do show para voltar pra casa… recentemente tive experiências tão gratificantes indo a shows pequenos de bandas que eu adoro, que acabaram reforçando tal convicção. O que faz com que a minha relação hoje com o Pearl Jam esteja em seu melhor momento: o agora.

Ouvir os discos me dá prazer, me leva a muitos lugares, me faz pensar, me faz sorrir e me faz saborear o presente enquanto olho para os meus arrependimentos e vivencio minha nostalgia pelos anos que acompanhei cada fase dessa banda que me inspira, me dá orgulho por seus posicionamentos, me faz querer tocar com a minha banda cada vez melhor, me faz querer estar vivo para ver a minha filha crescer e, quem sabe, acabar ouvindo um desses discos por vontade própria algum dia e se apaixonando.

Entre os 3 shows que vi do Pearl Jam, o primeiro foi, sem dúvida, o mais memorável. Era 2005, a primeira vez que a banda vinha ao Brasil, tocaram no estádio do Pacaembu, e eu lá estava com alguns dos meus melhores amigos. Sabendo que a banda nunca repete o mesmo setlist, havia muita expectativa quanto as músicas que tocariam naquele dia, em especial, os lados B e covers, já que Alive, Black e companhia limitada eram certeza que apareceriam. E foram muitas surpresas maravilhosas, incluindo Crazy Mary, Lukin, Corduroy, além de I Believe in Miracles, Kick Out The Jams e You’ve Got To Hide Your Love Away. Mas, nem em meus sonhos mais profundos, eu esperava que fossem tocar essa que é a minha favorita desde aquela época até hoje.

Lembro claramente, Eddie Vedder com sua Telecaster, dizendo ao microfone “We´ll try this one…” e faz soar um acorde de ré maior. Fui tomado por uma emoção que, juro, nunca tinha sentido antes, ao reconhecer de imediato se tratar de Present Tense. Foi a primeira vez que chorei assistindo a um show. Estava cercado de amigos, mas naquele momento, parecia que eu estava sozinho olhando para aquele momento mágico. Com os olhos marejados cantei junto o mantra que me acompanha até hoje: Você pode perder tempo sozinho remoendo arrependimentos do passado, ou você pode se dar conta que você é o único que pode se perdoar. Faz muito mais sentido viver no tempo presente.

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